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Mostrando postagens de 2014

2014

- E aquele emprego que apareceu para você alguns dias atrás? Como foi? - Era de manhã cedo. Recebi uma ligação. Inesperada, confesso. A moça do outro lado mal anunciou que estava convidado a me juntar à equipe que quase não consegui conter minha felicidade: tapava minha própria boca e dos dedos vazavam mínimos gritos histéricos de euforia. Quando me recompus, ela começou a perguntar sobre disponibilidade. Trabalharia durante pelo menos longos seis meses sem fazer muitos gastos e apenas juntando dinheiro para um fundo investidor o qual colocaria meu avô debilitado num albergue e vê-lo longe do sofrimento da indisponibilidade da família. Mas o que eu não sabia é que no local que eu trabalharia um dos chefes era também um dos sócios do albergue que rejeitou o pedido anterior que eu já tinha feito com o décimo terceiro de minha prima e o PIS de meu outro emprego para internar meu avô. E o pior: existia somente este albergue num raio alcançável da nossa falta de transporte. Escolhi...

Nosso primeiro pum

Completaríamos seis meses juntos em Outubro. Nem parecia. O tempo voa e a gente nem se dá conta. Olha uma vez pro calendário e lá está Julho. Vira, dá uma volta na rotina, olha de novo e lá já está no finalzinho de Setembro. Parecia até o tempo que eu passava com ela: mais rápido que salário indo embora depois do quinto dia útil. Falavam que isso era a tal da intimidade. Não tão completamente, mas eu bem que concordava. Falo isso porque a gente nesse pouco tempo já tinha contado muita coisa um pro outro. Já tinha dividido ronco em dia que encheu muito a barriga e já viu um mais depilar a laranja do que propriamente cortá-la direito. A gente compartilhava histórias e todo o seu escambau , só não tínhamos compartilhado ainda uma coisa: um pum. Ela era bem educada. Serena que nem um bem-te-vi tomando água numa pocinha em cima duma taioba. Eu desconfiava até se ela já tinha arrotado em público ou pelo menos em casa. Não, não combinava com ela. Nem uma coçada naquela durinha e ressecad...

Sobre amores e otimismo

Otimismo é assumir que, independentemente de circunstâncias, entraves e dificuldades, haverá um jeito da expectativa dissipar-se de si e tornar-se algo concreto. Ele é, também, mais ou menos uma felicidade presente em uma forma substancial de um ideal. O otimismo apresenta-se como segurança, como fulgor inspiratório para chegar lá, para fazer-se valer o pensamento positivo. Juca era otimista. O “ vai dar certo ” não saía de seus pensamentos, muito menos das sobras de sua memória. Pensar que não seria do modo expectado para ele era como aquele imprestável resto de gasolina vazando pelo cano do carro a viajar. Juca, além de tudo, era também romancista desses mais arcaicos. Guardava no cabelo um brilho intenso de laquê, do corpo o perfume se sentia em outros continentes, na vestimenta só se via amassada a blusa pra dentro da calça combinando com o terno-cor-de-azul-fumê. Era assim que Juca ia nos primeiros encontros. Uma figura elegante trazida dos anos setenta, mas com alma moderna....

Impossível

Queria falar do impossível. Queria entender como ele próprio se define assim. Entender sua semântica e ir além de sua representação. Dissecá-lo como se estivesse numa aula de biologia e ver por dentro seu funcionamento ou despedaça-lo como se fosse um diamante e analisar seus cristais. Entendo somente que, em termos definitivos, sua significação dá-se justamente por sua diversidade. A ideia de impossível é aplicada, por exemplo, se o objetivo traz no entorno a insuficiência de materiais para ser completado. O impossível pode também tomar a forma de uma via sem volta: quase como atravessar uma pinguela e durante o processo as madeiras caírem. O impossível, às vezes, é um desejo e por só aquele desejo assim será para sempre, sem conclusão ou satisfação plena. O impossível, dessa forma, é nitidamente um naufrágio de ambições de ideais. Ao apresentar um caráter irreversível, o impossível não somente compreende um vazio no ser, como também este mesmo vazio ramifica-se em mais vazio...

Ô, meu amor

E de repente virei pro meu amor e falei: “Tu te encontras nas minhas palavras?”. Às vezes eu falo, escrevo, penso, mas acolho-me nessa invariável incerteza se aqui tu te identificas. Mas eu vou lapidando umas palavras e você me acompanha, certo? Nem que aqui não se veja. De certo o que há no meu íntimo é não saber de nada. Como ter no punho um lápis e noutro uma questão matemática sendo que sou herdeiro de amores das humanas. Se assim me permite intitular-me, meu amor, sou filho das letras, amante das paroxítonas e devoto de uma pá de orações bem ou mal subordinadas. Ô, meu amor, fala para mim, diga-me se é assim que se faz com minhas palavras: se eu posso te procurar no meu mini-globo terrestre que eu chamo de coração? Te encontrou?  Talvez se eu pôr o dedo ali no meridiano e dizer a localização da minha memória mais aguçada de você seja um bom caminho. Deu?  Quem sabe dizer quando me perguntam onde fica essa libido toda que eu frutifico e com toda minha...

Timing

Alicia e Will tinham um caso complicado. Havia amor. Havia o mais intenso sentimento de desejo. Havia um lobo uivando em suas barrigas em cada vez que se viam. Havia o olhar feroz de uma coruja para sua presa quando se encaravam. Havia tudo necessário na bolsa para uma viagem apaixonante. Só não havia timing . Suas vidas operavam como duas linhas paralelas. Enquanto Alicia pegava o elevador; Will ia pela escada. Enquanto Will precisava de três copos de vinho para ter coragem de ligar e dizer que a amava como um esquimó ama seu iglu, Alicia, minutos atrás antes de desligar o telefone e com a atendente no canto do ouvido, pedia o cancelamento da caixa postal. Era assim: fazia chuva em dia de sol. Alicia e Will, da série The Good Wife , são exemplo crasso do que como os próprios roteiristas definiram de “ bad timing ”. Quando a vida tem um relógio atrasado para os seus compromissos desejados. Quando você cria no âmago do sentimento um desejo de andar de montanha-russa, chega no p...

Cabine

Nevava. O frio doía de combinar com a alma. As árvores gélidas. A grama debaixo da coberta branca e cristalizada. Os grãos de gelo embriagados que do céu despencavam em ziguezague. Os bancos da praça próximos ao extenso gramado com um lugar varrido a mão, afinal, vez ou outra alguém os limpava e os aquecia para assentar ali. Como era inevitável acontecer, às vezes alguns ficavam livres. Quando um surgiu como opção, um homem estudou o lugar. Em uma mão, um maço de cigarro; noutra, um isqueiro. Guardou o segundo no bolso após acender o primeiro e por ali se acomodou. Os olhos enrugados e vermelhos. Os lábios anunciando um terremoto de tão rachados. Os cotovelos em cima das pernas e o repique na ponta do pé dando o compasso de ansiedade. Olhava para o norte. Permanecia. Assoprava o vapor de frio no ar. As partes do seu corpo não dialogavam. Os braços descompassados; as mãos que erravam suas roçadas; os pés com um para frente e o outro para trás. A tristeza, como uma arte ...