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Mostrando postagens de 2013

Quem dera

A moça tinha um costume que só ele sabia identificar. Como bem decorou, ela admirava o pôr do sol. Não era surpresa uma pessoa se maravilhar com um melancólico fim de tarde. Sem nem saber, os dois, ali mesmo naquele fraquejado piso de marfim, faziam um dueto de espetáculo. A moça da sacada, no entanto, não enxergava o seu observar, embora fosse elegante ser dono do segredo dela. Ela variava em roupas curtas num corpo entregue ao sublime pedido de refresco. Seus cabelos úmidos e sempre penteados com a ajuda indireta do vento. Além, claro, do rosto livre e sem maquiagem, assim dialogando com a melhor naturalidade de si. Encantar-se por ela era sentir ter algo para amar. Cada detalhe anotado em tópicos de categorias que subdividiam-se à medida que descobria no pouco tempo um pouco mais da querida moça. Mas só se encantar era pouco. Pensar nela e pensar num futuro juntos era tão bom quanto uma salada bem temperada. Numa tarde de uma quinta-feira, quando finalmente entardeceu...

50 tons de beliche

  Christiano finalmente fechara o aluguel. Vivia ele e mais um colega, o Cesar. Na casa mal cabia espaço pros dois mais um quarto, um banheiro e uma sala-cozinha. Tentavam se abarrotar naquele imóvel que espremia para caber em suas despesas. O quarto era pequeno, insuficiente para duas camas. No improviso, compraram uma beliche, mesmo após demasiadas divergências a respeito disso. Ainda que soubesse que a juventude passa um tanto quanto rápida, Christiano era mais recolhido a um espírito de tentar ser alguém bem sucedido na vida. Trabalho, comprometimento e estudos consumiam seu tempo de forma quase que completa. Contudo, seu colega de quarto era o inverso dos polos. Cesar, além de come e dorme, era do tipo namorador, por mais que soasse incrível para Christiano que ele fosse capaz de formular alguma frase sem ajuda de um adulto. Para ele, os dias mais tortuosos eram os que Cesar levava a namorada em casa. Como inutilmente defendeu a ideia de beliche, não imaginava na época...

Chamada

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Mais de duas horas passadas. Nada. Colocou-se na posição de medir o tempo em vista de tentar controlar a ansiedade. Mas ele demorava a passar. Quando se espera ele demora. Como articulava, era estranha a relação entre demora e tempo. Um bem que contribuía com o outro. Qualquer indivíduo que estivesse adjacente à eles seria nada menos que designado à amargura da expectativa. O celular tinha seus olhos arregalados e atentos como vigias: quase como se fosse um guarda de segurança de vinte e quatro horas por dia. Qualquer movimento estranho ele tinha de ir lá e verificar. Mas eram raras essas vezes. Em qualquer lugar que estivesse tentava se controlar para não bisbilhotar mesmo quando ele não dava sinais de que era necessário ir até ele. Pegava. Checava. Novamente, nada. A escolta para com ele mais era dez segundos de atenção para as obrigações; dois minutos ou mais de um olhar minucioso para sua tela. Sempre um vai e vem de uma esperança vã e uma esperança por...

Seria

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Estar esperando por um vai e vem No caminho que quebra na esquerda e vira na direita Encostado no hidrante, pausado num instante A metros, sussurros; indelicados, vinham de encontro Falaram a cabeça do ouvido a dissonância Um sussurro com gosto de berro, de arder de ouvir Passou lá na quebra da direita e virando a esquerda Um o avião para o Amazonas; outro o ônibus para o Paraná Quase como aves migrando para leste e não para o sul Obrigando a comparação de cima a baixo sem encaixo    Ora um disco de vinil rodado ao contrário Ora um suéter costurado do avesso Ora uma semínima escrita num papel milimetrado Ora uma bicicleta que só andava para trás De encontro ao descompasso, no embalo da dança sem par O desencontro, assim de todo um vacilo Até a rima ele fez questão de desencontrar

Questão de sorte

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Ele não dava sorte. Tinha gente que costumava em sua primeira tentativa conseguir. Embora pudesse ser competência e percepção, não era submetido a ele simplesmente ignorar a sorte. Se por um lado coubesse um pouco de análise, sorte e nem muitos menos competência foram de encontro a ele. Na maioria de suas tentativas as circunstâncias pendiam para o lado frustrante da expectativa, aquele mesmo onde a pá tenta cavar o piso duro. Ainda que em todas as suscitantes percepções puderam promovê-lo ao pensamento de sim, de vai, de deu; por aqui: de não, de novo, de tentar. Ao que fazia trazia sentimento. De corpo até alma. Não fora da estrada: dentro, constante, desmodado. Entretanto, não reduzia-se à apenas isso. Ia mais além. Se o que sentira e se o que planejara pudesse surtir efeito, por que não mais? Por que não ir lá na ponta do pé de manga pegar a mais madura? Por que não ir lá ver no abismo se ele tem mesmo o cheiro de morte ou cheiro de vazio? Ainda na aresta de se...

Sem razão

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Um dos maiores prazeres dos meus dias é ir até a padaria comprar o pão das cinco e quinze e conversar com o Seu Tadeu. Ele é o dono e padeiro. Há mais de quarenta e oito anos manuseia aquele local. Era próximo daquele senhor. O conheço desde quando era moleque e aparecia com o nariz cheio de catarro, a bola embaixo do braço e os joelhos ralados para pedi-lo um pedaço de broa. Ele, como era de praxe de sua tão elegante educação, doava-me dois pedaços: um para ida e outro para a volta, pois ele sabia que minha mãe horas depois mandaria eu buscar alguns pães como era de costume. Por anos conservei nossas conversas de terças, quartas e sextas. Quando pequeno, perguntava como andava a escola e as namoradinhas; quando mais velho, sempre fazendo piadas com futebol, a vida e os amores, ainda que nossas conversas durassem apenas alguns minutos em vista do intenso movimento de pessoas. Num outro dia, não estava me sentindo bem. Questionava sobre muitas cois...

Entra aqui no elevador

O lugar que eu trabalhava era enorme. Era entrar naquele estabelecimento e sentir que um labirinto pode ter forma de um prédio. Oxalá com seus 30 andares e um punhado de escadas que, para mim, eram as paredes que nos encurralavam e nos engoliam na rotina.  A minha sala ficava nem muito em cima e nem muito embaixo. Um pouquinho pra lá da metade. Pra chegar era um Deus nos acuda, nos dê perna, nos dê água e nos dê um teletransporte. É, às vezes eu apelava com aquele cara lá de cima. Por sorte ele não apelava comigo. Ou apelava. Se o sinônimo disso fosse subir todos os dias aquelas escadas de piso de marfim amarronzado que camuflavam com o meu sapato desgastado.  A subida era sempre sangrenta. Eu subia sozinho. Dava a liberdade para as escadas ouvirem meus pensamentos. Também para responderem, ouvirem minhas reclamações e dividirmos histórias, se é que eu me permitia a tanta loucura. Escadas não são SAC. Mas eu fingia que eram.  “Por que ...

Pequeno

Curvado em um cansaço onipresente pelo corpo, tentei manter-me na melhor posição que não demonstrasse as pancadas da semana anterior. Era final de semana. Era dia de festa, dia de estacionar a rotina. Em pé. Um braço erguendo as goladas de bebida e o outro repousado no bolso. Caracterizando meu modo de quem estava ali à espreita, à esquiva de qualquer tipo de tentativa de dança que propusesse ao julgamento de ser um péssimo dançarino. Recolhi-me a movimentar meus pés minimamente de cá para lá, não perdendo o compasso de minha timidez. Distante dos banheiros e entre o palco e a multidão, observava o movimento. Era gente que não faltava mais. Movimentações contínuas para todos os lados que cabiam pessoas. Esbarrões sem querer e alguns por querer. Uma selva de tentativas de conquista, de tentar mostrar o seu aparente e insaciável desejo para alguém que ali era a primeira aparição em sua vida. Eu não me perdia em ser disso tudo; eu fazia diferente, de longe. Preferia abusar ...

Neblina da alma

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O frio do fim da madrugada. As nuvens cinzas. A neblina em paisana. Chovia, mas timidamente.  Eu nem sentia os pingos. O vento se fazia presente na forma mais branda e contínua de sua natureza.  Meu corpo planava pela rua. Me sentia num misto de estase e melancolia.  De um lado, bem lá no fundo do meu ser, um súbito pressentimento de que algo não me parecia certo; do outro lado, algo parecia. A minha casa estava longe. A minha dor era enorme.  Minha cabeça não suportava a pressão de pensamentos indo e vindo. Ela doía. Muito.  Cheguei a puxar meus cabelos semi-molhados para trás. Eu soava frio. E soava bastante.  Cadê minha casa? Por que as ruas estão tão extensas? Por que meus pés estão pesados? Por que essa sensação de querer vomitar a alma? As ruas vazias. Onde está todo mundo?  O que estou fazendo a essa hora andando sozinho por essas ruas abandonadas? Onde estão as cores das pessoas?  Minha casa esta...