Cabine
Nevava. O
frio doía de combinar com a alma. As árvores gélidas. A grama debaixo da
coberta branca e cristalizada. Os grãos de gelo embriagados que do céu
despencavam em ziguezague. Os bancos da praça próximos ao extenso gramado com
um lugar varrido a mão, afinal, vez ou outra alguém os limpava e os aquecia
para assentar ali.
Como era
inevitável acontecer, às vezes alguns ficavam livres.
Quando um
surgiu como opção, um homem estudou o lugar.
Em uma mão, um maço de cigarro; noutra, um isqueiro. Guardou o segundo no bolso após acender
o primeiro e por ali se acomodou.
Os olhos
enrugados e vermelhos. Os lábios anunciando um
terremoto de tão rachados. Os cotovelos em cima das pernas e o repique na ponta
do pé dando o compasso de ansiedade. Olhava para o norte. Permanecia. Assoprava o vapor de frio no ar. As partes do seu corpo não
dialogavam. Os braços descompassados; as mãos que erravam suas roçadas; os pés
com um para frente e o outro para trás. A tristeza, como uma arte abstrata,
pelo seu corpo se rebuscava.
Ao lado do
lugar que estava ficava uma cabine telefônica. Pouco visitada, na verdade. A
tecnologia invalidou sua importância. Mas ela ainda existia. Melancolicamente
falando, ela era como um sentimento de necessidade que agora não é mais
necessário. Lembrando, de certa forma, um amor passado que não funcionou.
Olhou para
ela. Tragou mais um pouco do cigarro. Respirou. Olhou de novo, dessa vez a namorando de cima a baixo. Do bolso pegou um bilhete que estava
acoplado a capinha de um celular. Um número nele estava anotado. Marejou os olhos ao encará-lo. Suspirou.
Da cabine
ouviu o chamado. Ela de repente começou a tocar. Quem estaria ligando para uma
cabine aleatória no meio do centro da cidade? E por que ele deveria ir até lá
atender? Por que qualquer pessoa deveria parar o que estava fazendo para
atender?
Insistente,
quem ligava persistia que alguém o atendesse. Era clara a necessidade de
urgência pelo atendimento, embora que quem passasse ali por perto fizesse-se
indiferente a isso.
Entretanto,
não resistiu aos chamados e atendeu.
- Alô.
- O que te
trouxe a essa solidão?
- É...
- Você está
se sentindo sozinho? A solidão é nada mais que a falta do que nunca se teve e
que sempre se quer ter.
- O que é
isso, afinal?
- Eu quero
conversar com você. Você quer conversar comigo, eu sei. Se abrir. Compartilhar
o que se passa. Compartilhar o que ficou e não se dissipou em palavras. Você
sente necessidade disso. Você sente necessidade de um diálogo, de entender seus
dilemas. Pude perceber, se assim me permite a leitura de ti.
- Fui
educado a nunca falar com estranhos. E muito me estranha você se importar.
- Se parar
para pensar, sempre seremos estranhos a todo mundo, até mesmo a quem conhecemos
há muito tempo. Quem unicamente tem liberdade de invadir o teu ser e conhecer a
ti como um todo, essa pessoa, meu caro, é você mesma. Somos guardados a nossos
segredos e de nossos segredos fazemo-nos estranhos.
- Um estranho dando palpites. Vê lá. Até que
ponto você quer chegar nessa conversa?
- Se
colocarmos o céu como limite, o universo será apenas um belo papel de parede.
- Tudo bem. Vou me jogar nesse jogo. Por que entende
que estou sozinho? Por que está falando comigo desse jeito?
- A alma de
um homem solitário se vê em vários lugares, em várias expectativas e em várias
instâncias, menos em sua própria felicidade. Teu rosto vago, despassado,
distante de qualquer modo de felicidade mais operante, é, para mim, evidente. Em
tuas expressões eu pude ver uma alma perdida. Em tua escolha pelo devaneio
neste lugar que estava, também.
- Muito me admira essa sua parte poética, confesso.
- E muito me admira sua admiração.
- Olha, na verdade minha
tristeza ser tão evidente me corrói. Pois é. Mas às vezes me perco nos meus próprios
motivos. Nem sei se meus motivos são de propriedade da tristeza, ou se
meramente abdiquei de discernir se eles são merecedores disso. Eu só atribui
tristeza porque simplesmente ela não me abandona, ela só me convém.
- Se por um lado ela tem uma direção e um motivo, por outro
ela esconde – não totalmente - a verdadeira essência e charme do que propriamente ela é:
a felicidade só pode ser felicidade a partir do momento que a tristeza existe. Merecedores ou não, eles carregam este fato.
- Então devo
entender minhas tristezas como simples trampolins de felicidades?
- Não
entenda uma soma como simplesmente uma união de fatores. Entenda que será um
resultado maior, de mais ampla proporção. Do tipo de não se abster ao fato de
não ter conseguido uma determinada busca, mas que a experiência trouxe-lhe a
diferenciar seus métodos de tratativas.
- Estou instigado com essa conversa. Mas eu queria
que fosse possível ser mais do que apenas estou sendo. Tenho sido estranho.
Tenho me comportado estranho. Não tenho me reconhecido. Por vezes não consigo
sentir a minha essência. Morro a cada vez que me perco no significado da minha
existência.
- A gente
vive a ilusão de criarmos um personagem para nós mesmos. Alguém que, quando
perguntarem por ti, saberão diretamente sua identidade, suas características e sua história.
Para aqui, nessa tua situação, a tristeza unicamente tange pelo fato da perda
de algo que teve e da mudança do seu modo de ser?
- Eu soaria hipócrita
se não afirmasse a perca de não saber quem eu sou mesmo.
O silêncio
dominou.
Do lado de fora
da cabine, uma moça bateu à porta trancada. Ele abriu.
- Desculpa
incomodar, mas o senhor vai demorar aí dentro? Preciso fazer uma ligação
urgente.
Não sabia
responder à adorável moça se já teria terminado o que estava fazendo ou não. Sentia-se
em uma outra instância de vida, onde não entendia onde estava e muito menos o
que fazia. Aquele até então estranho trouxe-lhe a um questionamento que gelara
sua alma e a conduzira a digerir aquilo tudo como esperar que a luz do sol a
derretesse.
- Senhor,
desculpa novamente, caso o senhor for demorar, vi que está com um celular em mãos, poderia me emprestar?
De boca
aberta e perplexo olhando para a moça, sentiu-se ainda mais atordoado.
Engasgava com as palavras e não sabia se expressar, sentia-se confuso na sua
própria maneira. Os olhos turvos, os ombros baixos, a boca inquieta. Encostou na parede da cabine e escorreu até assentar-se no chão.
- Deixe-me
ajudá-lo. – disse tomando o celular de sua mão o levantando e saindo dali.
- Tem um
número...
- Oi? Não
entendi.
- Tem um
número... – e assentou no banco que estava anteriormente.
- Que
número, senhor?
Com
a respiração fracionada, os olhos piscando mais do que o normal, a boca seca
como a casca de um pêssego e as palavras saindo em proporções de fraqueza, pediu:
- Ligue para
o primeiro que está registrado nas minhas chamadas, por favor.
- Tudo bem.
A moça
ligou.
E a cabine
tocou.
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