Cabine
Nevava. O frio doía de combinar com a alma. As árvores gélidas. A grama debaixo da coberta branca e cristalizada. Os grãos de gelo embriagados que do céu despencavam em ziguezague. Os bancos da praça próximos ao extenso gramado com um lugar varrido a mão, afinal, vez ou outra alguém os limpava e os aquecia para assentar ali. Como era inevitável acontecer, às vezes alguns ficavam livres. Quando um surgiu como opção, um homem estudou o lugar. Em uma mão, um maço de cigarro; noutra, um isqueiro. Guardou o segundo no bolso após acender o primeiro e por ali se acomodou. Os olhos enrugados e vermelhos. Os lábios anunciando um terremoto de tão rachados. Os cotovelos em cima das pernas e o repique na ponta do pé dando o compasso de ansiedade. Olhava para o norte. Permanecia. Assoprava o vapor de frio no ar. As partes do seu corpo não dialogavam. Os braços descompassados; as mãos que erravam suas roçadas; os pés com um para frente e o outro para trás. A tristeza, como uma arte ...