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CARAVELA PARADA

             Havia recomeçado o que havia planejado dias antes. Antecipou-se, como era de costume melindrar-se em terrenos ansiosos e pés aterrissados no chão; sabia os meandros do que queria, as facetas das imprevisibilidades e o possível arauto de desprezares que poderia lhe trazer a qualquer fio de descontrole. Abocanhou os plásticos nas juntas da poltrona e raspou com lixa o resto de tempo de espera que aquele móvel resguardou embaixo dos pés enquanto esperava por um comprador. Ronronou algo que poderia se dizer se era no crédito ou se era no débito e a atendente fez que entendeu lhe estendendo o comprovante de compra; ao passo que acordou que poderia ser entregue num endereço de alguém subitamente aleatório e isso não deveria parecer espanto a ninguém. Enquanto a valsa do par de poltronas e um pequeno aparador eram dadas em outro conhecido lugar, saiu de encontro a um eletricista que lhe prometeu a confecção de dois pares de luminárias qu...

SINAL

            Naquele dia viajava de dia. Era desses que preferia o cinza da estrada banhado a amarelo e não a preto. Era delicioso se ancorar na segurança de conseguir observar de longe a aproximação de carros na via oposta.          Rumava por uma estrada vazia. Era talvez a única solidão menos pavorosa que conhecia.           O caminho até seu trabalho consumia alguns quilômetros por dia. O deslocamento era desgastante, mas não deixava que isso o abalizasse ao volante. Talvez por estar acostumado com o caminho, sempre se permitia um pouco mais de luxo ao pisar mais fundo no acelerador. Sabia de cor e salteado onde recaiam as curvas, e sabia também quando reduzir para não ser flagrado por um radar.           Mas certo dia o acaso veio ao seu encontro.            Descia pela ...

SEGUNDA CHANCE

De jaqueta jeans preta surrada de pêlos brancos de gato, com um cabelo sempre úmido como uma toalha em uma sauna e com olhos que possuíam pálpebras tão pesadas ao ponto de não ser possível visualizar a cor de sua íris. Lara, a roqueira da oitava dois, impunha um respeito que se suspeita que nem sabia que tinha. Os all-stars desgastados com o tempo poderiam tomar a atenção como um desleixo, mas logo perdiam o posto por ainda acima serem ofuscados pelos rasgados em diagonais nos dois joelhos das calças. De queixo arredondado, lábios parcialmente finos e dentes grandes, quando sorria parecia a lua minguante rindo das pessoas de cima a baixo. Nem quando fazia tempo quente o preto era preterido. Era importante manter o estilo, mesmo que lhe custasse andar sempre como um pássaro invertido batendo as asas contra o próprio rosto. Lara embebia a mente de todos com sua personalidade misteriosa. Era de poucas palavras, resguardada a ser somente uma adolescente com estilo próprio, algo que a torn...

SALTO

          Havia chegado. Tirou o casaco cinza e o dobrou em cima da viga da janela. Viu algo que lhe tomou a atenção. Encarava aquele envelope que trazia dentro de si um tímido e ainda não lido cartão de visitas. O acariciou e cheirou como se soubesse o perfume que ele tinha rememorando um detalhe de alguma coisa que ainda não sabia exatamente o que. O cartão lembrava um dia, um tempo, uma memória que doía. Deveria ter cheiro de maçã com canela, ou um óleo de dama-da-noite. Não sabia decifrar, mas certamente era marcante. Entre uma opção ou outra um respirar fundo e uma indecisão. Existiam tantas palavras no mundo e um pequeno retângulo quis narcisicamente dar conta de englobar um capítulo inteiro numa redação para dizer tudo desnudo de alegorias e de significados demais. Apertou as pontiagudas extremidades dele e escorregou os dedos pelo talhado material daquele papel que acabara de perder sua pureza: agora ele era seu e suas palavras dizi...

William

“Pensar em você me faz bem. Eu não sei o motivo de só te trazer lamúrias, os desconfortos do meu viver. Eu devo estar fazendo errado, como sempre é de costume. Mas enquanto mãe, eu acho que você entende melhor que ninguém minhas fraquezas e talvez me faça elucidar melhor meus devaneios”. Tapeou a poeira no buquê empalidecido atado à lápide e assoprou a que se acumulava na foto já derretida pelas chuvas. “Você já deve ter visto de onde está, mas vim para conversarmos sobre isso. Eu me recuperei. Demorou, mas me recuperei”. Tirou o laudo psicológico do bolso e deu com a voz baixinha a ler o diagnóstico. Havia se recuperado de um transtorno psicótico breve. Ele se configurou após um considerável exagero na bebida em um dia qualquer. Bateu na porta da ex-mulher, acusou-a de coisas que nunca antes teve coragem de contar, espalhou a raiva pelo derrubar dos livros, vasilhas e vidros ali presentes. A ex-mulher esperneava enquanto pedia ajuda aos vizinhos e recolhia os filhos a um local...

PERDÃO

Faltava ar. O que era aquilo no reflexo? Havia um borrão no seu rosto, não te reconhecia, seu corpo estava todo fragmentado. Estávamos de mãos dadas a segundos atrás. Agora não estamos mais. Não fazia sentido. Sua risada perpetuava-se num eco canto a canto pelos ouvidos, até que findava-se quando eu tentava encontra-lo. Eu não consigo compreender. O meu sistema deve estar em pane novamente. Eu tinha um plano. Era uma ideia. Eu devo voltar à essa ideia. Talvez a razão esteja lá. Talvez eu saia desse bug . Cliquei.  Lembro que queria um pano que não me fizesse espirrar. Não podia ser algo tão fino, mas também não podia ficar tão preso à pele, sufocando meus movimentos e evidenciando meus desleixos pelo corpo. Tinha que ser branco, com mapas pretos que se perderiam por toda a costura e que dariam unidade ao meu estilo. Para os pés, nada ali na loja serviria; para a cabeça a mesma coisa. O alfaiate desenhou-o pela malha, de acordo com a postura que havia pedido. Era de comu...