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Mostrando postagens de 2022

CARAVELA PARADA

             Havia recomeçado o que havia planejado dias antes. Antecipou-se, como era de costume melindrar-se em terrenos ansiosos e pés aterrissados no chão; sabia os meandros do que queria, as facetas das imprevisibilidades e o possível arauto de desprezares que poderia lhe trazer a qualquer fio de descontrole. Abocanhou os plásticos nas juntas da poltrona e raspou com lixa o resto de tempo de espera que aquele móvel resguardou embaixo dos pés enquanto esperava por um comprador. Ronronou algo que poderia se dizer se era no crédito ou se era no débito e a atendente fez que entendeu lhe estendendo o comprovante de compra; ao passo que acordou que poderia ser entregue num endereço de alguém subitamente aleatório e isso não deveria parecer espanto a ninguém. Enquanto a valsa do par de poltronas e um pequeno aparador eram dadas em outro conhecido lugar, saiu de encontro a um eletricista que lhe prometeu a confecção de dois pares de luminárias qu...

SINAL

            Naquele dia viajava de dia. Era desses que preferia o cinza da estrada banhado a amarelo e não a preto. Era delicioso se ancorar na segurança de conseguir observar de longe a aproximação de carros na via oposta.          Rumava por uma estrada vazia. Era talvez a única solidão menos pavorosa que conhecia.           O caminho até seu trabalho consumia alguns quilômetros por dia. O deslocamento era desgastante, mas não deixava que isso o abalizasse ao volante. Talvez por estar acostumado com o caminho, sempre se permitia um pouco mais de luxo ao pisar mais fundo no acelerador. Sabia de cor e salteado onde recaiam as curvas, e sabia também quando reduzir para não ser flagrado por um radar.           Mas certo dia o acaso veio ao seu encontro.            Descia pela ...