CARAVELA PARADA
Havia recomeçado o que havia planejado dias antes.
Antecipou-se, como era de costume
melindrar-se em terrenos ansiosos e pés aterrissados no chão; sabia os
meandros do que queria, as facetas das imprevisibilidades e o possível arauto
de desprezares que poderia lhe trazer a qualquer fio de descontrole. Abocanhou os
plásticos nas juntas da poltrona e raspou com lixa o resto de tempo de espera
que aquele móvel resguardou embaixo dos pés enquanto esperava por um comprador.
Ronronou algo que poderia se dizer se era no crédito ou se era no débito e a
atendente fez que entendeu lhe estendendo o comprovante de compra; ao passo que
acordou que poderia ser entregue num endereço de alguém subitamente aleatório e
isso não deveria parecer espanto a ninguém.
Enquanto a valsa do par de poltronas
e um pequeno aparador eram dadas em outro conhecido lugar, saiu de encontro a
um eletricista que lhe prometeu a confecção de dois pares de luminárias que
faziam desenho de algo muito específico que buscou guardar segredo para não
enveredar nenhum dos dois em perguntas que eles mesmos não iriam querer trocar
conversas sobre. Talvez o máximo que dividiriam seria o riso de ter que se
virar por trabalhar em conjunto com os montadores das poltronas.
Por fim, suspirou de alívio quando a
atendente disse que a foto coubera exatamente como pedira no diâmetro da caneca
perolada que embebia um papel de presente e carregava, frugalmente, seis
embalagens de bombons de caramelo que reluziam o brilho de uma dureza que era
suportável de se chibatar os dentes ao degustá-los.
Havia feito tudo obedecendo as regras
do prazer subentendido e conversado anteriormente; estimava que aquele plano
fosse apenas mais um, de fato, mas com um pequeno adendo de escorrer-se de um
pouco de paixão.
Era estimado, ainda, que aquele ato faceirava
exatamente o melhor da figura de si: sair às caravelas de encontro às terras da
subjetividade e abrindo vista sobre coisas inexploradas que nem imaginaria que
soubesse que poderia haver em uma mente. Era gostosa demais a sensação de ser
diferente, de ser ampulheta de terra infinita nos momentos que se encontrariam
a partir dali e o avesso do que era temido poder recair novamente.
O então epicentro do plano sabia
exatamente sobre suas características e talvez fosse crível acreditar na
plenitude de um futuro, afinal, quem não gostaria de resguardar a sua própria
essência em um vaso cheio de paz e não em um com cobras esgueiras à espreita de
abocanhar-lhe com um veneno mortal.
Percebeu vozes com tons agudos demais
trocando ofensas que se perdiam em nomes indizíveis. Escorou o ombro na parede
e observou tudo aquilo.
O rapaz pegou a mulher pelo braço tão
forte quanto fosse espremer um graveto de cana com o próprio punho. Ela não
grunhiu, ela não reagiu; ela o fitou nos olhos e permaneceu repousada neles.
Ele não dizia nada, mas era possível ver nas expressões dela, que se escaldavam
pelos cantos do seu corpo, um doce sabor de admiração, desejo e libido. Quando
ela pronunciava algo era em tom intimidador, questionador, provocativo; dava a
entender que ela queria a atenção daquele rapaz e a única coisa que ele
oferecia era um pouco de desprezo em pequenas gotas de indiferença. Ela
simulava um choro ao tempo que se perdia em não saber se era lamúria de não
aguentar tanta coisa guardada para ser oferecida; ou se eram sentimentos de
dúvida que, por consequência, disfarçavam-se de amor platônico. Esta opera do
desastre só teve fim quando recolheu os ombros e se sentiu minguada por não ter
recebido nem um beijo de despedida, ou um “avise-me quando chegar”. Mas era
perceptível em seus olhos que guardava dentro de si a esperança de que aquele
homem poderia ser a terra a vista a ser explorada, que mesmo o mar nunca estando
em calmaria as velas estariam estiadas e o sopro da direção certa viria dela a
puros pulmões.
Quando ela passou pelo homem encostado
na parede, o chamou.
- A poltrona, a luminária e a caneca já
estão ajeitadas?
- Sim, do jeito que planejamos.
- É para agradá-lo, mas também trazê-lo
a me ver como eu o vejo.
- Podemos ensaiar de novo. Dessa vez
pedirei ao ator que interprete uma versão menos brusca, mais sensata e mais
empática que antes imaginávamos que ele poderia ter, mas não tão bem manifestado.
Comentários
Postar um comentário