SINAL
Naquele dia viajava de dia. Era desses que preferia o cinza
da estrada banhado a amarelo e não a preto. Era delicioso se ancorar na
segurança de conseguir observar de longe a aproximação de carros na via oposta.
Rumava por uma estrada vazia. Era talvez a única solidão
menos pavorosa que conhecia.
O caminho até seu trabalho consumia alguns quilômetros por
dia. O deslocamento era desgastante, mas não deixava que isso o abalizasse ao
volante. Talvez por estar acostumado com o caminho, sempre se permitia um pouco
mais de luxo ao pisar mais fundo no acelerador. Sabia de cor e salteado onde
recaiam as curvas, e sabia também quando reduzir para não ser flagrado por um
radar.
Mas certo dia o acaso veio ao seu encontro.
Descia pela via da BR-246 sentido São Gonçalo da Penha e sabia que aquele morro tão inclinado permitia ao carro voar pelos seus 140km/h com tranquilidade. Deu com a sola do pé de encontro ao macio acelerador sem sentir que estava tão acelerado. De longe avistou uma moto fazendo exatamente o contrário do seu movimento: ela estava conservadora, pouco era possível saber os motivos ou prever o que faria em seguida.
Antecipou
a ação pensando desviar jogando a seta para a esquerda.
De
alguma forma e lamentavelmente, tudo que fez caiu no ponto cego do retrovisor
da moto.
A
pessoa veio a jogá-la no ponto futuro em que seu carro passaria. Pisou
no freio no socorro mais espontâneo e alarmante que pôde. Virou o volante no
sentido oposto, mas era uma luta perdida: a física deu com um soco em seu
queixo uma vez que certamente seu carro manteria a inércia de sua
direção primeira. Ouviu um estalo repentino que pensou ser um anjo trancando a
porta de sua vida aqui na terra e o puxando para o além. Mas não era nada
disso. Ele rodopiou tantas vezes na
pista que o estômago chegou a ficar embrulhado. Quando finalmente parou e
entendeu tudo que estava acontecendo, viu a pessoa da moto vir em sua direção.
Saiu
do carro para respirar e averiguar se seus ossos ainda estariam inteiros e que
tudo aquilo ali ainda era a vida real e não uma simulação do seu coma pelo
acidente. Ela disse:
-
Está tudo bem?
-
Acredito que sim. – sentiu que a voz da pessoa era macia e se perguntou se era
uma mulher, uma vez que ela não se deu ao trabalho de retirar o capacete.
-
Acho que causei um prejuízo no seu carro.
Foi
finalmente olhar a origem do pequeno estalo.
-
Meu farol direito foi para o saco. Meu Deus!
-
Estou me sentindo culpada.
Pronto.
A dúvida havia sido sanada.
- Não se preocupe! Nós acharemos uma solução para isso.
Ela retirou o capacete. Nesse exato momento veio até ele um
estrago maior que o causado ao carro: o forte impacto daquele olhar. Sentiu que
foi analisado da ponta do seu cabelo bagunçado até o tênis malhado. Estava
grogue pelo acontecido, e pelo jeito se deixou ficar ainda mais por aquele
momento. Não sabia se ela o julgava, nem muito menos sabia se procurava o
ajudar. Mas aqueles olhos arregalados o fitavam demais, o esgueiravam em
excesso. Deixou-se levar e talvez tenha sido esse o grande problema. Aquele devaneio
por uma desconhecida, que por pouco não o fez perder a vida, era uma coisa que
beirava a loucura. Nem sabia se conseguia expressar direito o que era, porque
de certo ele não tinha nada. Chegou a dar um pulinho na carência e afundou os
pés mais profundamente do que gostaria.
- Eu tenho uma sugestão. – disse ela, se aproximando demais
do rosto dele para dizer sobre uma simples alternativa.
- Qual seria?
- Vou te passar o meu contato para acertarmos esse
prejuízo.
-
Certo, qual o seu número?
-
Na verdade... gostaria que se deslocasse até minha cidade aqui ao lado para
indicar o conserto ao meu irmão que é mecânico. Penso que assim não me
atingiria tanto financeiramente.
Parecia até que ela já planejava isso tudo anteriormente ao
acidente. Era uma sugestão muito meticulosa e resguardada, ainda que fosse
muito boa. Ou talvez ele estivesse caçando assunto onde possivelmente não havia
bulhufas. Ainda assim de novo se deixou levar.
- Entendo. Podemos fazer isso, mas precisamos combinar uma
data.
Combinou para levar o carro duas semanas depois.
Mantiveram conversas pela internet. Regularmente.
Era
estranho que aquilo tudo havia trazido intimidade. O caos proporcionando alguma
coisa que ainda não sabia definir muito bem. Ela dava corda, esticava assuntos
interessantes e dizia sobre coisas da rotina; ele comprava o momento quando
compartilhava algumas reflexões. Entendia que queria mesmo era manter o contato
ativo para que não houvesse maiores problemas sobre o acidente, uma vez que não
acionaram entidades superiores para mediar o acontecido.
As conversas tomaram um rumo perigoso em certa etapa: trocaram
redes sociais, alguns likes e risadas em fotos. Foram dias de entrega a
uma coisa simplesmente inacreditável. Em uma vida de vivências tão líquidas,
talvez estivesse na mais sólida que já tivera encontrado até então. Não
ironicamente, aquela situação que por pouco não havia o retirado a vida, agora o
dava um pouco dela dentro de uma esperança em algo que era inusitado e ao mesmo
tempo instigante. Sentia-se tão leve que se permitia ao exagero. Quando retomava
o pensamento em como aquela insanidade havia começado, não questionava os
métodos que o destino tinha para colocar certas peças no tabuleiro de sua vida.
Em uma conversa ela comentou sobre o dia do acidente. Disse
ter passado por maus bocados. Encontrava-se estressada. Seus pensamentos estavam
difusos. Não havia coisa alguma que não fosse confusão em sua mente. O máximo que
poderia afirmar sobre ela mesma seria sobre ter muito a oferecer, mas tão pouco
a se abrir para isso.
Enquanto
pilotava a moto naquele dia, disse ter desacelerado e fechado os olhos num
breve período onde já se sentia esgotada de todo um fardo que carregava, mas
que não chegou a descrever com mínimos detalhes o que era necessariamente.
Quando deu por si já era tarde demais. A lateral da moto veio de encontro ao seu
carro e só foi entender também o que havia acontecido alguns minutos depois,
quando acordou de um momento que talvez tivesse plena certeza que talvez ela não
quisesse ter acordado.
No
entanto, destacou que aquelas conversas que tinham enrubesceram uma vida tão
fria. Ria sempre do deboche do acaso sobre um acidente ter sido até então um
ótimo presente por ter trazido ele à vida dela. O contato diário dos dois a
fazia plainar. Dizia que se sentia acolhida, agradecia pela escuta e elucidava
que, mesmo breves, aqueles momentos a engradeciam.
Ao chegar a semana de levar o carro ele se encontrava em
uma ansiedade muito descontrolada e talvez até injustificável, o que o trazia a
estar em muitas instâncias da mente e em lugar nenhum paradoxalmente. Doía de
gelar os pés e apertar o peito sentir que o tempo era seu inimigo. As horas
pareciam até retroceder de tão lentas.
Entendia
que o pretexto único seria de chegar até lá, deixar o carro por alguns minutos
no mecânico e depois voltar.
Mas
uma parte dele acreditava que as conversas com aquela mulher poderiam render algo
mais. Afinal, em outro momento ele já havia sido sugado pelo olhar dela; agora,
era pela personalidade que conheceu por caracteres; o que viria em seguida era
o combustível necessário para se permitir um pouco de expectativa. Talvez pouco
parecesse humilde demais. Era muita expectativa.
Imaginava que o primeiro cumprimento seria regado ao mesmo
calor que se abrasou quando permitiu que aquele olhar o vigiasse por inteiro.
Imaginava que ao encostar o peito trocariam brevemente a boa energia que emanavam.
Imaginava que deixar o corpo dela junto ao dele seria a armadilha necessária
para que aquele perfume marcante ficasse em sua roupa por mais horas. Imaginava
que a troca que teriam durante um breve tempo era só um conta gotas da
imensidão do que fantasiava que poderiam viver.
Mas não sabia que a vida
tinha infertilidade para as coisas de sua imaginação.
No dia em que se encontraram foi recebido com um abraço sem
vida. Teve o seu primeiro alento, mas fez vista grossa, dado que poderia ser
mais uma vez a sua desconfiança dando o tom do traquejo. Entendia, à plena razão, que talvez ela valia muito
mais tentativas do que simplesmente desistir por uma hipótese tão derrotista.
Sentaram-se próximo à uma praça enquanto o irmão dela dava
jeito no carro.
Viajava
tudo sobre ela que no dia do acidente não foi capaz. Fotos dizem pouco sobre
traços; os dela atingiam com mais força quando encarados de perto. Havia também
aquela tão característica hipnose do olhar. Não deu muito tempo para que ela acontecesse
de novo. Encontrava-se num sublime estado de transe. Tudo o que mais queria era
tornar todas aquelas coisas da imaginação o presente daquele momento.
Manteve-se
estático enquanto ela falava. Não movia seus braços, pernas ou mãos em encontro
aos dela. As conversas trouxeram intimidade, mas sua coragem ficou resguardada
em algum lugar que não conseguia acessar naquele momento. Mal podia olhar para
o relógio em seu pulso para não se colocar em luta contra o tempo. Cada segundo
que a expectativa não se materializava era um segundo a mais de amargura.
Ela
se deslocou e ficou um pouco mais de um palmo dele. Seria um sinal que deveria
fazer alguma coisa? Seria um convite a tatear aquele rosto? Não teve acesso
novamente à coragem, mas abraçou firmemente a linha de respeito que entendeu
que não deveria ultrapassar até que ela indicasse que ele poderia.
Ele
não conseguia entender as palavras que ela dizia, nem muito menos compreendia o
argumento. Só sabia encarar aquela boca que tinha lábios com um desenho
viciante demais para não se desejar percorrer por eles junto dos seus. Ela
pegou uma de suas mãos; com a outra ela tomou seu rosto.
-
Olha como está gelada. – disse ela entrelaçando seus dedos entre a bochecha
dele.
-
Dá cá que eu esquento. – pegou as duas mãos dela e as acolheu entre as dele que
se encontravam tão aquecidas quanto a sua imaginação acabara de ficar.
Mal
sabia que atitude tomar.
De
repente aquela mulher lá de um acidente anterior agora estava ali resguardando
as mãos entre as suas, na maior ternura que jamais poderia imaginar que poderia
acontecer. Questionava o acaso, não sustentava o momento e nem se permitia. De
alguma forma era terrivelmente duvidosa a velocidade que tudo estava
acontecendo. É um costume corriqueiro a vida dar demais, mas também tomar
na mesma proporção.
-
Você perdeu a língua no acidente? – ela brincou.
-
A língua eu não sei, mas a sanidade, talvez.
-
Por que diz isso?
-
Olha onde eu estou agora!
-
Não estou te entendendo...
-
Nós colidimos naquele dia. Você deu uma alternativa interessante para o
conserto do carro. Nós trocamos conversas do nada. Criamos uma espécie de
intimidade na velocidade da luz. Eu vim até sua cidade. Estamos sentados numa
praça. O dia está lindo. Estamos com as mãos dadas. O que vem em seguida? Não é
um roteiro conveniente demais? Onde está a pegadinha? O que eu não estou
acompanhando?
O
celular tocou. Era o irmão. O carro estava pronto.
Ela
desatou as mãos. Saiu andando sem olhar para trás. Ele a acompanhou.
Encaminharam-se
para a oficina no silêncio mais profundo possível.
Não
demorou para que pegasse a chave do veículo. Saiu da oficina e estacionou no
primeiro lugar próximo à ela. A mulher abeirou-se cutucando o vidro da janela do carro pedindo que ele o abaixasse.
-
Nós poderíamos ir em um lugar que eu gosto muito.
-
Agora? E suas obrigações?
-
Você não quer mesmo curtir o momento, né?
-
Desculpa, não foi isso que quis dizer. Às vezes pode parecer que estou te
obrigando a fazer alguma coisa e...
-
Não! Vamos logo antes que eu mude de ideia! Mas deixa o carro aqui. Vamos a pé!
Deslocaram-se
para uma mata fechada. O caminho até ela parecia um labirinto todo ornado de
trepadeiras e orquídeas. A forma ovular que a natureza moldou o percurso era
algo fascinante: fazia um rodopio infinito, mas prazeroso de continuar andando.
Ela apontou um barranco. Dava para uma imensa colina que diziam se chamar
“queixo da bruxa” por ser tão pontiaguda vista de baixo; e uma pedra logo em cima simulando um teto no formato do nariz e da verruga. Ela parou bem
rente à ponta e olhou para ele como se exigisse timidamente que ele viesse e talvez
a abraçasse. Temoroso, manteve-se parado. Não fez nada. Não foi até ela, não
esboçou aquela imaginada vontade de antes de possuí-la nos braços e apenas
recolheu as mãos aos bolsos da bermuda.
Ele
entendia que nenhum sinal foi dado. De novo tão resguardado em não parecer
invasivo àquela mulher.
Ela
escondeu as mãos entre os braços cruzados e assentou-se perto da beirada da
pedra. Ele fez o mesmo, mas um pouco mais próximo do corpo dela. Desejava descontroladamente
que ela descruzasse os braços e os envolvesse em sua cintura enquanto ele
apartasse a nuca dela contra o peito dele.
Mas mais uma vez esperou por um sinal. Mais uma vez nada aconteceu.
-
Pelo jeito nós não iremos mesmo sair do lugar. Falta-te algo, mas não cabe a
mim te dizer o que, ou muito menos te cobrar alguma coisa. – disse enquanto se
levantava e batendo levemente com a mão em seu ombro direito.
Caminharam
encarando o fluxo da natureza e sentindo passo a passo o palato do silêncio.
Já
na rua da oficina ele pegou o carro. Tentou puxar um assunto com a mulher, mas ela deu
de ombros e só se despediu com um gelado acenar de mãos.
Tomou rumo para casa.
Tapeava o rosto em indignação. O que faltou? Por que não se
entregou? Por que preferiu se resguardar? O que aquela defesa dizia sobre
insegurança? O que significava aquele excesso de espera pelo sinal dela? E por
que esperar por um sinal? Por que a coragem estava velada? Por que acreditou
que tudo aconteceu numa velocidade espantadora e que talvez nem fosse merecedor
daquilo?
Todo
o carro estava enfumaçado de dúvidas no ar. Os pensamentos tão críticos
ocupavam todos os espaços de sua mente. Permitiu-se devanear mais do que
deveria. Questionou uma vida tão recolhida à indecisões e comportamentos de
segurança. Era corriqueiro perder oportunidades por não ter o princípio mais
básico da conquista de algo: permitir-se tentar. O acidente trouxe uma situação
rápida demais para processar, mas era também muito pressuroso de se aproveitar. Coisa
que não fez. Coisa que se lamentou por todo o caminho.
As
mãos estavam enfraquecidas ao volante. O olhar direcionado a lugar nenhum que
não voltados aos seus próprios pensamentos. Pisava fundo no acelerador. De repente ouviu um forte buzinar. Era uma
carreta acenando que ele deveria reduzir. Viu o maior quebra-molas de toda a
sua vida a muitos metros a frente. Agora tão apegado aos sinais, pensou que
esses dois últimos poderiam ser um alento do que poderia fazer em seguida para
ter uma segunda chance com o que havia deixado para trás. Seu desespero de resolução era simplesmente insânia. Não pensou em frear. Teve
uma ideia repentina. Acelerou o carro contra o declive na estrada para que
assim o mesmo estragasse e ele tivesse a desculpa de ver de novo aquela mulher.
Seria um pretexto interessante, pensou. Pelo menos era isso que estipulou
rapidamente naquele momento.
Acelerou.
E mais um pouco.
O
impacto do carro com a gigante lombada fez as duas suspensões do carro
amassarem; as duas rodas explodiram na colisão e fizeram o carro capotar na
direção oposta por incontáveis vezes.
A
ambulância chegou.
Testaram
seu pulso e seus batimentos cardíacos. Não havia sinal.
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