Rua dos meus olhos

Um menino. Diferente do comum. Tinha o rosto perdido. Parecia procurar por algo e não encontrar nada. Depois de muito tempo percebendo a presença constante e a parada estratégica do garoto em frente a rua, uma moça que morava lá em seu fim não hesitou em perguntá-lo:
- Olá, menino, me desculpe por tirá-lo do seu sossego, mas por que você fica parado em frente essa rua a encarando com os olhos perdidos?
O menino arregalou os olhos, os regou com gotinhas de lágrimas e abaixou a cabeça. A moça, sem entender nada, voltou a perguntar:
- Olha, menino, se o incomodei, me desculpe. Não era a minha intenção. É que esse seu costume de sempre parar aqui em frente e olhar para a rua me comoveu.
Ele novamente não disse nada. Intrigada, a moça pegou em suas mãos e disse com a voz mimada:
- Vai. Solte as palavras. Fale comigo. Fale, por favor.
O menino apertou forte a mão da moça em zelo, parecia inseguro mas cheio de si, e finalmente respondeu:
- Encaro essa rua pois foi exatamente aqui que iniciei uma grande paixão.
- Como assim?
- Aqui ela me mudou. Aqui encontrei minha versão feliz. A versão sorridente de uma alma que fora daqui era perdida em solidão.
- Mas por que passar todos os dias e encará-la?
- Porque ela ainda não é minha, mas ainda vai ser. Eu espero.
- Quem? Uma menina? A paixão?
- Não, você.
Quero passar nesta rua e encontrar minha "versão sorridente de uma alma que fora daqui era perdida em solidão."
ResponderExcluirPor mais numerosos e difíceis que sejam os caminhos pelos quais guiamos a vida, ainda espero passar por uma rua assim.
Mais uma vez, vejo-me em suas palavras, menino Tiago.
Doce texto.
“Um bom poeta pode fazer uma alma despedaçada voar.” — Charles Bukowski. Acho que isso se encaixa perfeitamente no seu modo com as palavras; acho que alguém que escreve, mesmo sem ser poeta, mesmo sem pretensão alguma de ser escritor... Também tem esse poder. Senti-me na calçada dessa rua a ver e ouvir o acontecido, e como me tocou.
ResponderExcluirCuide-se.