SEGUNDA CHANCE

De jaqueta jeans preta surrada de pêlos brancos de gato, com um cabelo sempre úmido como uma toalha em uma sauna e com olhos que possuíam pálpebras tão pesadas ao ponto de não ser possível visualizar a cor de sua íris. Lara, a roqueira da oitava dois, impunha um respeito que se suspeita que nem sabia que tinha. Os all-stars desgastados com o tempo poderiam tomar a atenção como um desleixo, mas logo perdiam o posto por ainda acima serem ofuscados pelos rasgados em diagonais nos dois joelhos das calças. De queixo arredondado, lábios parcialmente finos e dentes grandes, quando sorria parecia a lua minguante rindo das pessoas de cima a baixo. Nem quando fazia tempo quente o preto era preterido. Era importante manter o estilo, mesmo que lhe custasse andar sempre como um pássaro invertido batendo as asas contra o próprio rosto.

Lara embebia a mente de todos com sua personalidade misteriosa. Era de poucas palavras, resguardada a ser somente uma adolescente com estilo próprio, algo que a tornava singular num mundo plural de ideias para a faixa etária.

Dener, no entanto, era observador. Se Lara era a hipotenusa, ele poderia muito bem ser um de seus catetos. A fitava como só um beija-flor se deleita aos brilhosos pólens de uma Caliandra. Um amor platônico começa pela idealização que se transforma em uma peça romântica: a ele, apenas um monólogo. Entre tantos que a enamoravam, acreditava que era necessário ter um enredo magnificamente belo flertando a uma pruma de pavão com a paleta de cores completa. Não havia nada que sua tenra idade não tivesse imaginado que não seria irresistível viver com ela.  

Certa vez recorreu aos anjos e santos para pedir uma pequena ajuda que ela só virasse um pouco o pescoço em sua direção no horário da merenda para que a mesma o visse e que ele se dispusesse a buscar o prato para que ela repetisse a refeição.

Lara de fato chegou a virar despretensiosamente e Dener imitou um fiscal de pátio recebendo um avião com leds nas mãos. A garota, inusitadamente, estacionou onde seus braços indicavam: seus olhos pertenceram brevemente àquela cena pitoresca que ele se propunha.

Quase parecendo Martinho da Vila a guiar uma roda de samba, o tateio no prato ditava um ritmo frenético de tremedeira. Chacoalhava até a última estria do braço. Ela o encarava achando engraçado, mas entendia que ele só queria propô-la a um repeteco na comida sem deixar esfriar o lugar que se assentava. Jogou o prato de um lado da mesa até o final como se fosse uma atleta profissional de curling e ordenou só com uma leve inclinada na cabeça que o franzino pardal apaixonado lhe buscasse uma segunda refeição.

Do caminho até a fila e dela até a cantineira, uma deliciosa dúvida o permeava: entregar o prato o colocando na mesa? Ou sentir o toque daquelas unhas com esmalte preto defasado? E depois do toque? O que haveria a mais? Recolheria as mãos dela junto às dele, se aproximaria e pediria silêncio a todos para ouvi-la dizer “obrigada, venha logo me beijar”? A cantineira rompeu a brisa fantasiosa pedindo-o para esticar o prato: ela parecia uma servente de pedreiro em um dia ruim de serviço empunhando com força o arroz carreteiro como se fosse uma argamassa na extremidade de um tijolo. Voltou e decidiu esticar até onde ela pudesse pegar ainda no alto o prato de suas mãos. Ela pegou, colocou em cima da mesa e, com o corpo virado para o prato e o pescoço retorcido, disse sem graça “muito obrigada”. Talvez o agradecimento mais romântico que já recebera, ainda que sem vida alguma. Sentiu que havia cumprido um dever, mas o prêmio por aquilo foi pequeno demais.

Lara mudou-se de escola semanas depois. Nem deu tempo de Dener elaborar algo que esticasse aquele dia na cantina um pouco mais.

O rock já não fazia mais presença nos corredores. O preto voltou a ser sem graça. As calças jeans precisavam ser costuradas. Não deu tempo nem de brincar que gostaria muito de saber se ela queria comer uma terceira vez naquele outro dia. Lara se foi sem deixar um bilhete avisando que poderia visitá-la, ou mesmo que estaria distante somente dos olhos.

Vinte anos se passaram.

Dener já sentia que não aguentava mais os arranjos da juventude. Qualquer atividade era suficiente para o cansaço tomar-lhe o corpo inteiro. O trabalho era uma desculpa para decidir que precisava melhorar a postura de sua coluna.

Já a relação com os amigos era passiva e procrastinadora: quando possível se encontravam, mas não havia esforço para isso acontecer.

Ele não sabia curtir a noite, seja em uma festa ou em um bar. Entendia que momentos breves ali vividos seriam histórias que poderiam ser vazias de sentido; e que frequentá-las frequentemente seria colecionar um álbum de figurinhas brancas.   

Todavia, haveria um espetáculo teatral seguido de um coquetel e buffet próximo à sua residência. Gostou da proposta de que poderia ficar sentado a maior parte do tempo degustando drinks de nomes difíceis e comidas que jamais buscaria a receita. Convidou os amigos e não obteve sucesso. Decidiu ir só, como um peregrino em direção ao seu desejo. 

O cheiro do lugar lembrava um salão de festas versado de múltiplos perfumes diferentes. As mesas acetinadas e conjugadas com taças e pratos. Dener puxou uma cadeira para assentar-se contra a parede e distante dos locais pré-reservados. Observava o local e tentava encontrar algum rosto conhecido. Bem no meio do arrasta-pé dos garçons uma mulher lhe chamou a atenção. Tinha os cabelos parcialmente úmidos puxados num rabo de cavalo e presos a uma fivela em formato de laço de flor-de-lis rosa. Seus olhos possuíam pálpebras pesadas impossibilitando de enxergar perfeitamente seus olhos. Quando ela sorriu em agradecimento a um garçom, pôde ver os finos lábios que acobertavam grandes dentes.

Seria Lara? Depois de tanto tempo?

Repousou o barquete de camarão na mesa enquanto tentava engolir a seco o que já se encontrava em sua boca. Foi desgostoso demais saber que o tempo não cura paixões que não aconteceram. Seu corpo já estava combalido das obrigações adultas, mas observá-la naquele momento foi como retorná-lo à sua adolescência. Sentiu o suor umedecendo a palma de sua mão. Sorria sem o significado da felicidade.

Porém, dessa vez não havia prato para tentar cordialmente oferecer a busca para ela. Nem haveria qualquer desculpa para puxar um papo, uma vez que na memória de Lara ele fosse apenas um rabisco que se desfez com o tempo.  

Não demorou para se encontrar em ansiedade ao pensar em alternativas de abordagem com ela.

Chegou a pensar em não se identificar, ao tempo que sabia que isso não importava porque ela de qualquer forma não sabia o seu nome. Assim como tentar resgatar que já aconteceu o convívio dos dois poderia ser não menos que imputá-la à sua idealização romântica e não o que a moça realmente viveu no passado. Também sabia que quem vai a um espetáculo teatral quer apenas relaxar os ombros desgastados pela rotina e não receber nos ouvidos um galanteio que agora vinha cavalgando em perpetuações advindas.

Dener entendeu que precisava de algo para sustentar sua curiosidade e também para fechar esta então aresta aberta de tempos incompletos.

Direcionou-se ao bar para mergulhar dois gelos num copo de whisky numa irrisória tentativa de atenuar o nervosismo que abalava sismicamente seu corpo.

Enquanto o barman servia, algo inusitado acontecia.

- Fosse uma caipirinha o seu drink estaria perfeito dada a intensidade que você está tremendo. – brincou a moça pedindo um copo de água com gás e limão.

- Eu senti uma coisa muito intensa agora a pouco.

- Que coisa? – disse, ainda de lado para ele.

- O cheiro de um Balade Sauvage que tomou o salão inteiro e que se aproximou demais de mim.

- Fico imaginando se cheirasse diretamente onde está aplicado... seria bom deixar um paramédico a postos.

- Podemos testar.

A moça finalmente se virou para ele e sorriu. Pôde ver que aquela misteriosa garota de anos atrás ainda habitava um bem cuidado corpo de uma mulher que não precisava afirmar nada para que soasse imponderada em qualquer argumento que tivesse.

- Muito obrigada, mas... dizem que ele pode durar até vinte e quatro horas na pele. Quem sabe até lá você não terá essa oportunidade. – Afirmou de ombros enquanto saía em direção à escada que levava a um lugar ignorado pelos garçons.

Aquele agradecimento tinha o mesmo timbre do passado, mas estava suavizado como um figo em caldo de açúcar. Ela parecia ter delimitado um tempo, como se Dener tivesse que desabrochar sua especialidade de desarmar bombas e impedir que a oportunidade explodisse. Pediu mais uma dose como forma de combustível emocional para tentar qualquer coisa intuitiva, uma vez que não conseguia formular mais um plano conciso para abordar de fato a moça.

O salão teve as luzes abaixadas ficando num tom fumê por todos os cantos. A fumaça esgueira começava a abraçar o palco e denotava que algo estava por vir. Uma música dançante deu o ar do espetáculo. Era mais romântica, convidando todos a uma dança a dois.

Aproximou-se da moça e pediu-lhe a mão. Solicitamente ela o concedeu. Agarrou sua cintura suavemente como se abraçasse um travesseiro para dormir. Puxou-a para mais perto e foi de encontro ao seu pescoço.

- Parece que não foi necessário nenhum paramédico.

- É porque ainda é a primeira etapa. Ainda terá mais coisas para te testar.

Ela desatou as mãos de Dener de sua cintura enquanto caminhava rapidamente para a escada do térreo. Acenou para que ele fosse lá também.

Ela, arisca, parecia brincar com ele o excitando a correr atrás dela; ele, afoito, não sabia bem qual era a proposta daquilo tudo, mas se envolvia no devaneio dela.

Quando a perdeu de vista encontrou uma porta entreaberta. A abriu. Ela encarava uma janela velha e surrada que caía aos pedaços. Ele pensou em chegar por trás e repousar o queixo no pescoço dela, mas logo se ateve que talvez não fosse uma boa ideia por não saber qual o nível de intimidade que aquele misterioso encontro sugeria. Encostou o cotovelo bem ao lado de onde ela estava e dividiram o silêncio observando aquela tela exibida na janela que não apresentava simplesmente nada.

Ela puxou seus dois braços e pediu que ele ficasse parado. Fez um movimento de abraço estendido e cerrou suas duas mãos entre seu pescoço e seus ombros enquanto o encarava.  Ele ameaçou dizer algo, mas ela logo tapou sua boca.

Os dois se entreolhavam e davam passos para lá e para cá. Os únicos sons presentes eram a abafada música que vinha lá de baixo e que era sobreposta pelo rangido da madeira velha no chão.

Ela sentiu que a respiração de Dener estava ofegante, ansiosa. Pegou a mão direita dele e a massageou. Fez o mesmo com a esquerda. A tensão ainda estava presente nos ombros. Ela puxou uma cadeira e pediu que ele se assentasse. Ela delicadamente tateava aqueles ombros tão rígidos como se algum perigo estivesse à espreita. Enquanto os polegares pareciam maestros, os outros dedos eram regidos em movimentos de redemoinhos sobre sua pele.

Ela pediu que ele tirasse a blusa. Ele atendeu e abraçou o próprio corpo como se dissesse que estava tudo bem em ele ser imperfeito.

A massagem ganhou um tom maior. Ele sentia arrepios sem ventos frios quaisquer. Entre um apertar e outro ela encostava a ponta do nariz em suas costas e dava breves selinhos espaçados.

A tensão diminuía.

O corpo dele parecia uma água morna pronta para receber um sachê de chá. Ela ficou de frente para ele e sentou em seu colo. Pedia para que ele sentisse seu corpo. Ela usava um vestido tão fino quanto uma folha de seda. As mãos dele dançavam pelas extremidades do busto e da barriga dela como se quisessem a esculpir novamente.

A pele dela era macia, tão delicada quanto uma pétala de ipê-amarelo despencando pelos efeitos do outono. Ela pegou as mãos dele e colocou em seus seios. Pediu que não apertasse forte, que simplesmente escorresse como água entre eles. Trouxe a cabeça dele até próximo de seu pescoço e segurou forte seu cabelo. Retorcia-se incontrolavelmente deixando respingar por todos os lados um desejo impaciente que aqueles corpos pudessem se aquecer mais, se abalroarem mais.

Ela se levantou do colo dele e veio de encontro ficando face a face. O movimento era claramente uma intenção de domínio, que ela queria que aquele homem a servisse de alguma forma.

Ela pediu que ele ficasse de joelhos no chão.

Devagar e quase dilacerando os próprios lábios em charme, ela vagorosamente desceu a calcinha branca rendada e a jogou para onde nem se importou que caiu. Ela apoiou um dos pés na cadeira e logo depois tomou o queixo dele em mãos o trazendo próximo de sua barriga. Pediu que ele olhasse para ela e apertasse com uma das mãos um de seus seios e que vagarosamente fosse em direção de seus dedos que abriam caminho para o seu clitóris.

Ele vagarosamente beijava e passava seus carnudos lábios umedecidos pelo caminho da barriga até a vulva. Com movimentos circulares e sem muita força na ponta da língua, tratava com muito carinho aqueles lábios cheirosos e depilados.

Sentia que quando fazia movimentos anti-horário as coxas dela tremiam um pouco e sua boca ficava mais quente. Repetia quando notava que a barriga dela encolhia e suas mãos ficavam mais firmes em sua nuca.

Ela o levantou e o beijou. O sabor entre os lábios dizia sobre intensidade e um pedido para que aquilo não parasse.

O abraçou forte e começou a levemente arranhar suas costas. Escorregou as mãos até sua virilha. Sentiu que estava muito úmido por fora da calça. Desceu de joelhos até próximo do zíper. Desenhou com a ponta da língua um mapa em torno do volume que fazia por ali. Deu uma leve mordida e uma fungada. O encarou bem nos olhos e como se soubesse fazer um slow motion em tempo real perpassou sua língua por todo o seu lábio enquanto apertava fortemente suas duas coxas duras.

Levantou-se.

O empurrou até a janela.

Pediu que ele a ajudasse a se assentar ali.

No entanto, perceberam que ela fez um barulho craquelado. Ignoraram também quando sentiram uma breve poeira invadindo aquele momento.

Ela começou a retirar o seu cinto. Ele estava bem preso e ela insistia em querer arrancá-lo com força abrupta. Quando tentou puxá-lo de uma vez, a parte que sustentava seu glúteo rompeu-se, ela se desequilibrou e começou a cair.

Ele tentou segurar seu braço, mas o movimento foi rápido demais e ela despencou do telhado.

O grito de desespero cerrou o silêncio de prazer.

Era apenas um andar, mas uma altura relativamente alta para se cair de costas e conseguir ser otimista que nada tivesse acontecido. Colocou rapidamente sua roupa e desceu em total pavor para o andar de baixo para ver o que havia acontecido com ela e ajudá-la.

Ao chegar ao solo, viu que ela tinha respiração, conseguia falar e no seu corpo não haviam rastros vermelhos de sangue ou tristes hematomas roxos da pancada. Ela tossia muito enquanto retirava alguns pedaços de telhas que estavam atarraxados em seu cabelo. Ela pediu que ele fosse até o teatro para pegar seu celular e ligar para sua mãe, avisando que poderia estar em um hospital mais próximo.

Assim ele fez.

Ao pegar a bolsa e desbloquear o celular, Dener buscou por “mãe” nos contatos. Havia uma foto a identificando. Ele a ampliou. A tremedeira que antes havia dado lugar ao gozo, agora havia retornado. Engasgou com a própria saliva e sentia que o efeito do whisky já não lhe pertencia mais. Nutriu forças e ligou.

- Oi filha, tudo bem?

- Desculpa, aqui é um amigo dela. Ela sofreu um acidente e me pediu que te avisasse.

- Meu Deus! Ela está bem?

- Está sim, foram só alguns arranhões.

- Eu estou indo para aí agora. Qual o endereço?

- Desculpe-me, mas antes de mais nada... qual o seu nome?

- Lara.

 

      

 

      

 

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