Pequeno
Curvado em um cansaço onipresente
pelo corpo, tentei manter-me na melhor posição que não demonstrasse as pancadas
da semana anterior. Era final de semana. Era dia de festa, dia de estacionar a
rotina.
Em pé. Um braço erguendo as
goladas de bebida e o outro repousado no bolso. Caracterizando meu modo de quem
estava ali à espreita, à esquiva de qualquer tipo de tentativa de dança que
propusesse ao julgamento de ser um péssimo dançarino. Recolhi-me a movimentar
meus pés minimamente de cá para lá, não perdendo o compasso de minha timidez.
Distante dos banheiros e entre o
palco e a multidão, observava o movimento. Era gente que não faltava mais.
Movimentações contínuas para todos os lados que cabiam pessoas. Esbarrões sem
querer e alguns por querer. Uma selva de tentativas de conquista, de tentar
mostrar o seu aparente e insaciável desejo para alguém que ali era a primeira
aparição em sua vida. Eu não me perdia em ser disso tudo; eu fazia diferente, de
longe.
Preferia abusar da imaginação. Filmar
e reproduzir quem havia por ali. Quais seriam as boas opções para contornar os
vazios das minhas tristezas.
Havia uma diversidade de belezas.
Desde as mais incrivelmente fascinantes até as que satisfaziam um desejo não
recíproco, mas que sustentavam uma ilusão em querer tê-las.
Como por exemplo, abaixo da
escada que namorava o chafariz perto do palanque, estava a Cachinhos Dourados,
como carinhosamente a apelidei. Carregava na blusa um brasão condizente ao que
parecia ser o curso que graduava: uma casinha. Seria arquiteta? Era apaixonado
pela profissão. A Cachinhos Dourados fez com que sentisse ainda mais prazer em
conhecer aquele mundo. Tinha aquele jeito que trazia ao meu colo um irreparável
sentimento de ambição. Pensei no seu futuro. Via a imagem dela sorridente ao
concluir o seu primeiro projeto de campo: a construção de um prédio que viria a
ser a primeira central de pesquisas para clonagem de espécies raras de uma erva
medicinal que estava em extinção e que tinha o poder de ser exterminadora de
doenças crônicas na pele. Depois de anos batalhando, a vida iria lhe propor o
que melhor recompensava os seus dias de luta. Pensei no nosso futuro. Pensei em
ser o cara que enxugava o seu suor. Pensei em ser além do que um mero
espectador desse triunfo. Eu queria estar lá. Eu queria ser o segundo projeto
de campo da Cachinhos Dourados. Querida arquiteta, cativais-me. Como eu queira
ir até aí tentar te conhecer.
Mas encostada e fazendo companhia
ao poste, estava a minha segunda paixão do dia: a Francesinha, em razão de suas
unhas extremamente bem cuidadas e brilhosas. Segurava o poste como se ele fosse
cair. Debaixo da luz, parecia estrela de um musical. Só faltava chover para
completar o seu espetáculo. Ela cursava letras, como bem entregava sua blusa
decotada com o nome do curso. Pensei no seu futuro. Sua graduação lhe propôs a
uma vida além da escrita, onde, após o sucesso no mestrado em Michigan e no
doutorado em Orlando, lhe deu cadeira cativa como professora e pesquisadora em
uma universidade respeitada nos Estados Unidos. Pensei no nosso futuro. Pensei
na nossa vida no exterior. Dizendo carícias de amor em outra língua e até mesmo
na nossa, que é tão linda quanto esse seu jeito sexy de mascar chiclete,
querida Francesinha. Como eu queira ir até aí tentar te conhecer.
E por fim, destacando-se por ser mais
alta que todas as suas amigas, estava a Salto Vermelho. Com aquele sorriso que
fazia ponte com o meu sorriso bobo ao olhá-la. Aquelas pernas longas e
voluptuosas. Fascinado. Lembrei rapidamente de seu curso, pois ela era estampa
do jornal da faculdade do último mês. Fazia medicina e adorava esportes. Pensei
no seu futuro. Seu clube de futebol do coração abriu edital para um concurso
que selecionaria o(a) próximo(a) médico(a) do clube, devido ao que estaria no
cargo ter sido convidado a trabalhar em um clube europeu. Você conseguiria. O
seu clube seria o meu clube. Eu seria um torcedor. Fanático, jamais deixaria de
te apoiar nessa empreitada que unia o útil ao agradável em tua vida, querida
Salto Vermelho. Como eu queria ir até aí tentar te conhecer.
Quando as cores do céu se
esvaíram e a noite tomou conta, senti que o tempo se esgotava. Queria conhecer
pelo menos uma de minhas queridas. Ou conhecer todas, se a mim coubessem tantos
romances. Meus grandes futuros pensados poderiam, quem sabe, tomar forma. Ou
não.
Olhei para a Cachinhos Dourados.
Tentaria abordá-la cautelosamente apenas lhe propondo uma conversa. Fui em
direção a ela. De início, não se assustou com minha abordagem. Foi simpática,
como muito fantasiei minutos atrás. Quando me direcionei ao seu ouvido para lhe
dizer algo que me sufocava, ou que inspirava em mim um desejo irrefutável de
querer abraçá-la, rapidamente impediu que eu dissesse algo e deu-me um beijo
carinhoso na bochecha e pediu que segurasse o copo que estava em sua mão e
disse que ia até ali e já voltava. Ela não voltou.
Querida arquiteta, o que
construirei apenas com esse copo em mãos?
Recuei e olhei para a
Francesinha, que ainda estava perto do poste. Dei um longo passo para a direita
em direção a ela. Não sei se pressentiu ou conseguiu observar meus olhares, que
eu não os continha, confesso, e imagino tê-la constrangido pelo excesso de
encaradas, mas me aproximei. Antes mesmo de dizer minhas primeiras palavras,
ela colocou aqueles dedos com cheiro de hidratante em minha boca e disse com os
olhos arregalados encarando os meus: “Não”.
Querida Francesinha, por que
estrangulou minhas palavras? Logo você que é uma mulher de/das palavras. Tu
abortou meu afeto antes mesmo dele sair do útero.
Voltei novamente para a posição
de origem e partiria para a última tentativa. Dei um leve passo para o meio em
direção a Salto Vermelho. Dei dois. Dei três. Cheguei perto. Cutuquei levemente
seus braços e disse oi. Com olhar de estranheza, ignorou a minha presença ao
seu lado e se afastou por alguns centímetros. Continuou sua dança e aguçou a
minha invisibilidade. Foi indiferente com minha tentativa de conversa.
Querida Salto Vermelho, tive com
você o romance mais xucro de todos. Você preferiu não ser de
minhas palavras, nem de meus olhares e nem de mim. Você indeferiu meu recurso
de amor.
Fiz questão de me jogar nos
romances, de ser grande num futuro com elas.
Mas na verdade percebi que fui
apenas um pequeno detalhe nesses futuros.
Um pequeno detalhe.
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