Questão de sorte

Ele não dava sorte.
Tinha gente que costumava em sua primeira tentativa
conseguir. Embora pudesse ser competência e percepção, não era submetido a ele
simplesmente ignorar a sorte.
Se por um lado coubesse um pouco de análise, sorte e nem
muitos menos competência foram de encontro a ele. Na maioria de suas tentativas
as circunstâncias pendiam para o lado frustrante da expectativa, aquele mesmo
onde a pá tenta cavar o piso duro. Ainda que em todas as suscitantes percepções
puderam promovê-lo ao pensamento de sim, de vai, de deu; por aqui: de não, de
novo, de tentar.
Ao que fazia trazia sentimento. De corpo até alma. Não fora
da estrada: dentro, constante, desmodado. Entretanto, não reduzia-se à apenas
isso. Ia mais além. Se o que sentira e se o que planejara pudesse surtir
efeito, por que não mais? Por que não ir lá na ponta do pé de manga pegar a
mais madura? Por que não ir lá ver no abismo se ele tem mesmo o cheiro de morte
ou cheiro de vazio?
Ainda na aresta de seu olhar, de longe avistara o outro.
Sorridente, pois esperou o tempo certo para tentar num dia que não tentou, por
pensar que seria, que daria, que era tempo de pronto e foi. Feliz dizia o outro pelos arredores de seu corpo
todo. Ora por tanto e tanto quanto justificável. Contudo, para ele, o outro
era um molde.
Mas ele não dava sorte.
No caminho por sua rua, lá de longe mas tão cá nos
pensamentos: ela, andando em direção oposta, do outro lado da rua e do outro
lado do peito, também. De encontro aos olhos quando se viram apenas o instante
de congelamento. A ele, surpresa. A ela, não sabia. Ir lá ou ficar aqui? Seria
a hora certa? Não seria, pensou. Faltava sorte. Mas ela acenou e sorriu e veio.
O despiu de tudo que era ali por momento: um nada cheio de um instante de desvanecimento.
Ela o abraçou. Seu corpo derreteu. Sua boca amoleceu. Seu peito disparou. Seus
braços grudaram nas costas dela e dali não queriam sair. Um abraço de um tanto
muito bom. E por só ficou no cumprimento. Ali, só entreolhares. Pra que
palavras? Bastou-lhe tudo aquilo só. Ela. Ó, ela. Foi embora.
Na manhã seguinte, ao acordar e olhar, estava, como um
quadro na janela, um dia nublado. Uma grata surpresa. Ele aparecia vez ou
outra, mas a ele faltavam detalhes. Dia bom. Dia para ele. Na horta, tudo já
preparado como era de costume. Era seu dia. Dia de tentar. Parecia que ia.
Finalmente parecia. Os dias nublados eram tão esperados quanto um arroz
soltinho no almoço.
Lá estava guardado dentro de um local banhado com raios de
sol. Pegou, acariciou e colocou em um vaso num canto estratégico da horta,
assim como religiosamente, por assim dizer, não se desfazia do hábito.
E choveu.
Finalmente, choveu.
A chuva entrou pelo vaso e sugou e deu suspiro a toda a alma
do buquê.
O buquê era para ela. Prometera a si que só o entregaria depois
que o mesmo tomasse um banho de chuva. Ela, a chuva, tão rara quanto seu otimismo.
O buquê estava em estado de quase querer ficar murcho, pois estava ali a mercê
de uma oportunidade, de uma sorte. E ela chegou. Ele ganhou vida, ganhou
esperança, ganhou libido.
A ela ele entregaria. Em seguida, um pedido: “Sai comigo,
querida moça?”.
Se o sucesso viria, o
futuro diria.
Mas é apenas uma questão de sorte.
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