Quem dera
A moça tinha um costume que só ele sabia identificar. Como
bem decorou, ela admirava o pôr do sol. Não era surpresa uma pessoa se
maravilhar com um melancólico fim de tarde. Sem nem saber, os dois, ali mesmo naquele fraquejado piso de marfim, faziam um dueto de espetáculo. A moça da sacada, no entanto, não enxergava o seu observar, embora fosse elegante ser dono do segredo dela.
Ela variava em roupas curtas num corpo entregue ao sublime
pedido de refresco. Seus cabelos úmidos e sempre penteados com a ajuda indireta
do vento. Além, claro, do rosto livre e sem maquiagem, assim dialogando com a
melhor naturalidade de si.
Encantar-se por ela era sentir ter algo para amar. Cada detalhe
anotado em tópicos de categorias que subdividiam-se à medida que descobria no
pouco tempo um pouco mais da querida moça.
Mas só se encantar era pouco. Pensar nela e pensar num futuro
juntos era tão bom quanto uma salada bem temperada.
Numa tarde de uma quinta-feira, quando finalmente entardeceu, inusitadamente
pensou em ir abaixo da sacada no exato
momento em que a moça iria até ali e gritar para todo mundo ouvir: “Ei, sem nem te conhecer eu gosto tanto de
você”. De certa forma, se passar por um maluco especialmente para aquela
circunstância poderia ser bom, ainda que isso pudesse assustá-la. Ao se
posicionar, o tempo fechara e os pingos de chuva esparramaram-se por sua testa em
sua cabeça erguida. Ela viera até a sacada, mas para recolher algumas roupas e
apenas olhou para baixo e o viu declinar o rosto, sentar na escada e observar
tristemente as pessoas que passavam.
Relevou, afinal entendia que o tempo não sabia dos seus
sentimentos e que sorte mesmo não tivera naquele dia. Mas a semana não era
feita de dias – elegantemente, ora, no plural - à toa.
Se na quinta-feira o tempo de repente se entristeceu e chorou
chuva no lugar do pôr do sol, na sexta-feira, no entanto, ele preferiu a
alegria. Fazia sol de rachar. Era esperado que ela fosse na sacada. Era de
bombardear de expectativa. Era de sentir que finalmente poderia propô-la a
descer e conhecê-lo, assim mesmo nessa loucura de esperar que deixar o conforto
de sua casa para ir até a porta do prédio atender um desconhecido e que esse
mesmo desconhecido declarasse um amor platônico fosse algo realmente irresistível.
Posicionara-se no mesmo local do outro dia. Era horário de
pico. Era confusão de gente com pressa em busca de descanso; carros buzinando que mais pareciam conversar entre si; caminhões tão barulhentos quanto uma barriga com fome. Ela saiu na sacada. Em
sua beirada olhou para o horizonte e balançou os cabelos como se nem soubesse
que parecia estar numa propaganda de shampoo. Chamava por ela. Ela olhou, mas
não ouviu nada do que ele falava. Ele acenava para que ela descesse e
sorria enquanto isso. Continuava e ela apontava para os ouvidos como se
dissesse que não estava ouvindo e entendendo. Por mais que fosse uma cena estranha e que estaria ganhando a atenção dela, valeria mantê-la. Chegou até a
juntar as mãos uma sobreposta a outra como se pedisse o coração dela. Ela
acenou indicando que iria descer.
Ao abriu a porta, irreconhecivelmente viu-se paralisado.
As mãos não saíram da posição que fizera anteriormente. Com aquele sorriso de
derreter as geleiras do frio em sua barriga, ela suavemente disse:
- Oi, tudo bem?
Nenhuma palavra conseguiu escapar.
- Te vi me chamar e acenar e fazer o possível para descer, me
senti sensibilizada, acho que você merece isso aqui.
Seria um beijo? Seria um abraço? Seria um tudo?
Ela pegou nas duas mãos dele, colocou algo entre elas e as
fechou, o encarou nos olhos e delicadamente disse:
- Toma esses trocados. Você deve estar morrendo
de fome. Eu adoro ajudar os sem-teto que ficam aqui na porta do prédio.
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