Sem razão

Um dos maiores
prazeres dos meus dias é ir até a padaria comprar o pão das cinco e quinze e
conversar com o Seu Tadeu.
Ele é o dono e
padeiro. Há mais de quarenta e oito anos manuseia aquele local.
Era próximo daquele
senhor. O conheço desde quando era moleque e aparecia com o nariz cheio de
catarro, a bola embaixo do braço e os joelhos ralados para pedi-lo um pedaço de
broa. Ele, como era de praxe de sua tão elegante educação, doava-me dois pedaços:
um para ida e outro para a volta, pois ele sabia que minha mãe horas depois
mandaria eu buscar alguns pães como era de costume.
Por anos conservei
nossas conversas de terças, quartas e sextas.
Quando pequeno,
perguntava como andava a escola e as namoradinhas; quando mais velho, sempre
fazendo piadas com futebol, a vida e os amores, ainda que nossas conversas
durassem apenas alguns minutos em vista do intenso movimento de pessoas.
Num outro dia, não
estava me sentindo bem. Questionava sobre muitas coisas que necessitavam de
respostas. Fui até a padaria. Nada melhor que perguntar para o meu querido
velhinho e sugar um pouco do longo tempo que ele já viveu por essa terra e
coisas que só a vivência saberia dar seus jeitos.
A padaria estava
cheia. As pessoas estavam desesperadas pelos pães e famintas pela pressa. Seu
Tadeu, com a caneta na orelha direita, o bloquinho no bolso no canto esquerdo
do peito e o palito de dente rolando de um canto da boca até o outro, tentava
atender a todos sempre não deixando escapar o estresse de gritos de canto a
canto pedindo quantidades e variadas combinações de deliciosas refeições.
Chegou a minha vez.
Disse olá. Seu Tadeu
olhou para baixo sem me dar resposta. Ergui minha mão para cumprimentá-lo. Ele
nada fez. Se virou de lado. Chamei mais alto, quase que acenando. Nada. Uma
outra atendente bem proxima veio até mim e perguntou o que eu queria. No fundo
uma vontade insana de pedir uma explicação para o que estava fazendo o Seu
Tadeu, querida moça. Mas, olhando por cima dos ombros dela, o vi indo para os
fundos.
Não entendi muito o
ocorrido e queria saber os motivos do Seu Tadeu. Eu precisava dele por um
momento.
Segui meu dia. Dessa
vez indo até meu trabalho para recolher alguns laudos que há dias não recolhia.
Eu já tinha noção de que o pessoal estaria irritado comigo – e subscrevia em
meus pensamentos desculpas que eu sabia que não seriam necessárias para
esconder minha falta de responsabilidade.
Na porta do
consultório cento e dezenove, Kelly aparece com o corpo dividido entre uma
parte dentro e outra fora, com a caderneta na mão e a cabeça repousada na quina
da porta.
Das minhas colegas de
trabalho, Kelly era a que tinha o olhar e a personalidade mais fortes.
Principalmente o olhar. Eu me sentia intimidado quando conversava com ela.
Sentia aqueles olhos meio puxados e de cor de côco me instigando a um infinito
modelo de persuasão e charme.
Kelly era reticente e
difícil. Eu convivia com isso. Mas não entendi o motivo de estar daquele jeito.
Sabia que pessoas duras também têm seus momentos de fraqueza, mas vindo dela
era algo que me surpreendia e de certa forma trazia um lado dela que eu
gostaria de viver e ver mais de perto.
Me aproximei e
dividimos um pouco de silêncio. Ergui minha mão para que ela me desse a dela e
eu pudesse dizer que tudo ficaria bem. Com a mão frouxa e duvidosa, deu-me um
aperto anêmico. Não senti a pressão de seus dedos e nos seus lábios eu não vi
um desenho de alguma palavra querendo surgir. Ao soltar minha mão da dela, ela
caminhou devagar até a mesa, deixou a caderneta, olhou devagar para mim,
suspirou e saiu da sala sem dizer uma palavra.
Não sabia o que ela
pensava de mim naquela hora. Não fui atrás. Peguei meus laudos que ali mesmo
estavam e decidi ir embora.
Não sou de atalhos,
mas precisava chegar rápido em casa. Desci pelo morro da Capelinha de Bom
Senhor da Penha, onde a rua era toda revestida de pedras e com um espaço amplo
que carros não subiam. Andava a passos largos.
Ninguém estava
descendo, mas tinha gente subindo. Estava na contramão de todos.
No canto que caminhava
e na direção de meus passos, estavam parados conversando Gilson, Ferdinando,
Marcela e... Mariana.
Mariana. Ela. Mariana.
A bela.
Por muito tempo
Mariana foi uma das minhas impossibilidades favoritas. O fato de ser tão
difícil me aproximar dela sempre me trazia a um inescrupuloso mergulho em um
desafio sem premiação. Mas o miserável fato de apenas admirá-la era um pequeno
conforto numa alma pobre de esperança, ainda que soubesse que tudo aquilo não
passasse de uma perda de tempo de minha parte.
Chegamos a nos
conhecer. De uma maneira que o destino fez questão de evidenciar minhas
características e deixar claro que meu pessimismo não passava de um infantil
escudo de meus sentimentos frente ao meu coração, mas que também construía uma
barreira entre eu ser dela e ela ser de mim. Estabelecemos uma relação onde eu
me via obcecado e ela vitima dos meus carinhos.
Ela era compreensiva.
Não me tratava mal. Zoneou-me na amizade sem que meus olhos cegos pudessem ver,
mas minha ilusão de pelo menos tê-la assim já era motivo suficiente para
comemorar.
Chegamos a um ponto
onde ela se via tranquila a dividir tudo que a afligia, a deixava sem um norte
ou ferroava a bolha de sua autoestima. Passei a ser um escoro para seus
momentos de cansaço físico e mental.
Fui até ela.
Ao chegar perto, todos
se calaram. Gilson olhou-me com a cara fechada de cima a baixo. Ferdinando e
Marcela fizeram o mesmo. Mariana, a ultima a virar vagarosamente para
ver quem era, deu um passo leve para trás, colocou uma mexa de cabelo na orelha
esquerda, franziu os lábios e não olhou em meus olhos. Estiquei minha mão na
tentativa de cumprimentá-la. Ela nada fez. Em silêncio, todos acenaram uns para
os outros e se despediram.
Fiquei sem entender a situação, mas instigado com o silêncio.
Mariana e meus outros
amigos fizeram a mesma coisa que Seu Tadeu e Kelly.
E eu me peguei aflito
para saber por que eles estariam em silêncio para mim naquele dia.
Ai, Tiago, li o final com o coração na mão. O silêncio inexplicado está me ensurdecendo e me atordoando neste exato momento. Senti o que o personagem sentiu diante do silêncio alheio, vi transferida em cada palavra a minha angústia.
ResponderExcluirQue esses silêncios sejam quebrados para que nos mantenhamos inteiros.
Um abraço apertado,
Dani.