Magnetismo
Um movimento brusco e um vulto preto no cateto dos olhos. Um
senhor abaixou-se para pegar seu boné. Deu com os joelhos dobrados no chão
enquanto estendia a mão em negação. Uma mulher gritava com ele. Seus gritos não
eram proporcionais ao seu tamanho. Ela o acusava. Ele se defendia com a voz
embriagada. O tom da gritaria se elevou. As pessoas, num ímpeto de multidão
aflita por uma confusão, quase davam as mãos em ciranda e cirandinha. No ringue
uma discussão por um copo de uísque. A mulher alegava que o homem havia roubado
uma garrafa inteira dela num dia em que sua loja fazia uma degustação grátis dos
modelos antigos oriundos de países com apenas consoantes. As ofensas não pediam
licença. Os dedos apontados para a cara um do outro não tinham bússola. As
quitandas ali em volta suavam frio com medo de serem flageladas por um
empurrão. O senhor finalmente realocou o boné na cabeça. Mas nem deu tempo dele
se encaixar direito. A mulher aplicou-lhe um tapa na maior direção que seus
pequenos braços poderiam atingir. Ele se desviou. E assim, num infortúnio
descuido, atingiu o corte nos pontos da apêndice recém-operada de meu tio. Nós
só nos direcionamos até ali para comprar um cacho de bananas, nem confetes
tínhamos para enfeitar a briga. Mas voltamos com um pedaço de unha atrelado a
um fio de costura. Meu tio foi para o hospital realocar os pontos e eu fui para
o ponto de ônibus.
O céu ronronou. Davam faíscas brilhantes e os coqueiros
dobravam. Ele empalideceu-se de repente. Olhei para o relógio. Faltavam cinco
minutos para o ônibus passar. Eu o cutucava e batia a ponta do pé em ansiedade
tal como fazia com minha mãe nos dias que estávamos atrasados pro yoga. Isso de
nada adiantava, não daria um estalo repentino no ouvido do motorista. As
pessoas olhavam meu guarda-chuva como se fosse o último recurso num apocalipse inevitável. Apertei-o entre
os braços e o chamei de filho. Alguns pingos furaram a largada. Estava
absolutamente tranquilo. Eu tinha um guarda-costas e em minha pele não
encostaria nada além de um vento exagerado. Na ponta da esquina duas moças
vinham em disparada. Uma carregando um bolo de casamento; outra gritando “ai
meu Deus, será que esse homem vai parar pra gente subir?”. Era meu ônibus que
em vinha disputando corrida com as moças desesperadas. Naquele instante a chuva
cai de pronto. Abri o guarda-chuva. Montei minha seca casinha debaixo dele. A
moça que carregava um peso que seus braços pediam por arrego estava a frente da
outra que não sabia que naquele dia atuava como frentista. O vento forte trazia
indelicadamente a chuva de lado. Virei meu guarda-chuva para o lado esquerdo de
mim. A moça que levava o bolo parou para procurar uma marquise. A próxima
rajada foi tão forte que fez a moça que vinha correndo escorregar. Como tudo
que ela podia apoiar ali por perto estava escorregadio, ela procurou pela minha
perna. O maior erro de sua vida, pois ela também estava úmida. Acabou que ela
derrapou toda sobre mim e segurou forte por demais minha bermuda e a abaixou
até meus pés, dando com os beiços no chão. Soltei o guarda-chuva que voou para a
direção contrária e onde eu já chorava por ter que ir buscá-lo. No que fui de
encontro aos meus pés para levantar minha bermuda e congelado na posição de
agachado, vejo que ele prontamente acertou o bolo no meio, fazendo uma cascata
ao contrário de pedaços de massas que nunca mais iriam se juntar.
A única imagem que vinha aos meus olhos era a da fúria dos
deuses gregos ensaiada nos olhos daquela moça. Ela iria me assassinar com ou sem o guarda-chuva. Mas quando voltei à realidade vi que ela somente desenhou no
rosto uma tristeza de quem realmente não sabia o que fazer a partir dali.
Cheguei perto.
- Como posso te trazer confiança depois de me ver de cueca e
acabar com o seu bolo?
- Deisimara. – disse, abaixando o rosto.
- O que?
- Deisimara Antunes Capelleto Silva.
- Não entendo.
- Esse será o nome de casado dela a partir das 20h.
- Ah, o bolo...
- Não é o bolo, é a vida.
- Se eu não tivesse aparecido no seu caminho hoje nada disso
teria acontecido. Mas posso propor de improvisarmos. Eu vou ali na padaria e
compro um bolo mais simples, mas significativo. Talvez com ele irá uma história
para contar.
Ela olhou com um semblante de quem não estava nem aí para
nada dali em diante. Mas eu insisti e disse que voltaria em no máximo dez
minutos.
Comprei rapidamente e desci o morro do supermercado.
Andava depressa como sempre fazia antes. Olhava para baixo
ignorando os olhos de todo mundo. Conhecia o caminho para o supermercado/ponto de onibus apenas
pelas linhas surradas do chão esgarranchado. Fazia o caminho dos desvios de muitos ombros que faziam de
tudo para desviar dos meus. Mas um me esbarrou forte. Ergui a cabeça e pedi
desculpas sem nem saber para quem ela era enviada. “Ei”, ouvi de longe. Olhei.
Nora Aline, ou “Line” para os íntimos. Line veio de encontro a mim com os
braços abertos. Os encaixou pelo meu corpo num abraço espontâneo. Senti calor
na alma. Devolvi o carinho apertando levemente meus dedos em suas costas.
- Como se esquecer desse abraço? – disse ela me soltando e
devolvendo um sorriso.
Line foi o melhor presente que nunca ganhei.
Talvez ela ter aparecido naquela hora e naquele momento foi mais uma vez a vida
lhe descendo como isca e eu um peixe a deriva, sem que nem por uma vez eu tive
a coragem de abocanha-la. Com ela a todo momento que dividíamos o cotidiano num
diálogo sem tempo, sentia uma vontade de dizer minhas inseguranças e saber que
ela faria da minha fraqueza um ser tão inquebrável como o martelo de Thor. Seja pelo fato de que eu não precisava ser um
personagem de mim para lhe trazer alegria, ou seja pelo fato de que jamais
precisei oferece-la a propaganda de um produto que ela gostava de ter para
si. Nós éramos como um punhal cravado numa cana-de-açúcar. Nós éramos a hóstia
que ungia o bem no corpo um do outro. O vinho que compartilhávamos nas noites
que vendíamos ao esforço de passar a papelada do trabalho tinha gosto de quem
queria fazer como seu efeito: desacelerar o envelhecimento daquela relação tão
sadia. A gente mantinha um relacionamento sem que nos namorássemos. Éramos
dois, mas vistos como um palitinho ao lado do outro. Não nego que por toda
minha vida eu desejei que fossemos unidade.
- Eu sinto saudade de você. - disse ela, como se fosse
roteirista dos meus pensamentos.
- Não queira saber o que está na minha cabeça
agora.
- Não entendi.
- O que está aqui dentro deve permanecer aqui dentro.
-
Cara?
Nós nunca nos despedimos antes, porque de adeus nunca soubemos brincar.
Mas Line largou o trabalho para escalar montanhas e vencer desafios. Talvez
quisesse desafiar a vida recebendo somente a medalha invisível da bravura, ou mesmo viver intensamente como eu sei que nosso trabalho nunca iria lhe propor à isso. Eu
nunca entendi essa decisão, mas eu respeitava. Eu nunca mais a vi desde então, pelo menos não
fisicamente, só quando vasculhava meus pensamentos para repaginar o que ainda
havia dela dentro de mim.
- Eu visitei sua mãe. Deixei um broche com ela de
presente para você.
- Esse? - disse tirando-o de dentro da blusa e amarrado a
um cordão.
- Acho que combina contigo.
- Essa pantera não sai do meu peito. É
um pouco de você para os meus dias.
No supermercado um barulho ensurdecedor de
caixas caindo cortou o nosso encarar envergonhado nos olhos. As pessoas
alvoraçadas como baratas embaixo do pé da geladeira. Viro para olhar. Como o
supermercado fica num morro, as pessoas desciam em velocidade mais rápida do
que jamais conseguiriam atingir. Algumas tropeçavam e outras apenas deitavam e
eram pisoteadas. Uma avalanche de melancias vinha em nossa direção. Muitas
atingiam as pessoas e as faziam rolar junto delas morro abaixo. Algumas
espatifavam e outras não conseguiam seguir um rumo reto. Só fui me dar conta da
realidade daquilo quando uma me atingiu nas costas, me jogou na direção de Line e nos derrubou.
- Desculpas, mil desculpas!
- Está tudo bem. Não machuquei. Mas estou cheirando a glacê.
O bolo já era. E eu não podia dizer mais nada para Line, nem para tomarmos um café juntos, ou fazer piadas de perfumes com essência de bolo que não sabemos se existem. Talvez aquilo ter acontecido naquela hora fosse a vida batendo ponto no seu trabalho cotidiano de ser ela mesma.
- Esse bolo era para alguém? - ela perguntou.
De onde estava eu podia ver o ponto de ônibus. Em mim a única
dor de que eu falhei na missão de consertar um erro. O erro veio até mim e eu
deixei ele ser orquestra do caos. Olhei para ver se via as duas moças. Elas
ainda estavam lá. Uma delas impaciente, andando e voltando num circuito de um metro e meio. Mas será que elas acreditariam numa avalanche de melancias?
Ou que eu parei para conversar com um grande amor que nunca tive e eu sujei a
roupa dela com o glacê vermelho do bolo que tinha acabado de comprar? Era mais
provável dizer que eu parecia um campo magnético e que eu atraia toda a
energia negativa ao redor para mim.
- Eu vou tentar achar um lugar para eu me
limpar. Vê se não some. Eu gosto muito de você e não de uma forma que suporte a
saudade. - disse ela ao tempo que me entregava um beijo na bochecha segurando meu
queixo.
- Espera! - segurei firme o braço dela. - Eu não quero que esse assunto fique mais uma vez inacabado entre nós.
No que me aproximei romanticamente dos lábios de Line, sinto passos rápidos atrás de mim e um zunido nos meus ouvidos. Era a moça que carregava o bolo, com um soco inglês na mão direita e que naquele instante acabara de me golpear fortemente no lado direito do ouvido. Caí desmaiado.
Quando finalmente acordei, vi meu tio sentado na cadeira ao lado da cama. Ao me ver abrir os olhos, ele disse:
- Fica o aprendizado desse dia: mais vale aguentar uma cãibra
que ir comprar um cacho de bananas.
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