PERDÃO
Faltava ar. O que era aquilo no reflexo? Havia um borrão no
seu rosto, não te reconhecia, seu corpo estava todo fragmentado. Estávamos de
mãos dadas a segundos atrás. Agora não estamos mais. Não fazia sentido. Sua
risada perpetuava-se num eco canto a canto pelos ouvidos, até que findava-se
quando eu tentava encontra-lo. Eu não consigo compreender. O meu sistema deve
estar em pane novamente.
Eu tinha um plano. Era uma ideia. Eu devo voltar à essa
ideia. Talvez a razão esteja lá. Talvez eu saia desse bug.
Cliquei.
Lembro que queria um pano que não me fizesse espirrar. Não
podia ser algo tão fino, mas também não podia ficar tão preso à pele, sufocando
meus movimentos e evidenciando meus desleixos pelo corpo. Tinha que ser branco,
com mapas pretos que se perderiam por toda a costura e que dariam unidade ao meu
estilo. Para os pés, nada ali na loja serviria; para a cabeça a mesma coisa. O
alfaiate desenhou-o pela malha, de acordo com a postura que havia pedido. Era
de comum rotina ele perguntar o motivo, ainda que nunca recebesse nos ouvidos
qualquer resposta. Só o fazia, como o prazer do trabalho ordenava. Uma vez que
terminou sua obra de dias penosos atrás, persistiu em plantar indagações, e
novamente não colheu nada. Enverguei a carteira e fiz voar as notas no balcão.
Agradeci o trabalho do velho amigo e dei com os panos prontos nos ombros.
Em plena contramão à minha casa, dancei com as rodas do carro
no rodapé do loteamento vago perto de uma fazenda e estacionei rente ao murinho
triste de madeira. Subi no tronco mais parrudo e assentei-me a encarar o vasto
gramado. Fitei a bela vista e tive no olhar a atenção do estudo daquele lugar.
Ele fazia uma sinuosidade, sem nem perceber que parecia uma onda
esverdeada. Dava lá no pico a vista mais panorâmica do céu: o mar de estrelas
que viria à noite era um presente para se ver deitado. Conduzi-me a um breve
momento de reflexão, encaixando meu braços respirando fundo, bem como despencando
meus olhos para baixo e afrouxando meus ombros. Por incrível que pareça, meu
plano parecia fazer sentido naquele horizonte sem nada. Suguei o ar como se
nunca mais fosse respirar e despedi-me dizendo “até logo”.
Num mata-burro ali próximo, encontrei uma cabeça de boi num
portão enferrujado. A peguei. Quebrei-lhe os chifres sem delicadeza e arranquei-lhe
a parte do nariz, com a melhor sutilidade cirúrgica que fosse possível no
momento. Ao lado dos números que identificavam o lugar havia uma ferradura, que
foi furtada para se juntar às outras três que já havia saqueado de outros
lugares.
Não havia mais nada que quisesse fazer, apenas recolher-me em
casa e esperar a noite para retornar àquele local.
No quarto, deslizei a mão pelo rosto, como se quisesse
limpá-lo sem nada por ele. Engoli em seco. Girei os olhos em um redemoinho
infinito, tudo conduzido pela força centrípeta dos imparáveis pensamentos. As
neuroses obsessivas assumiam o posto de comandantes da mente. Tudo era ruim.
Tudo era pessimismo. Dei um selinho na xícara de café quente e assentei-me em
frente ao computador. Nada fazia sentido. Digitei no campo de pesquisa do Facebook “Gaya”. Logo apareceu o rosto
dela, da Valeria Gaya. Sorridente, como era de praxe. Não cliquei. O “Em memória de” antes de seu
nome ainda estava lá. Era como um túmulo online. Isso trazia-me a um indócil
desmaio nas minhas próprias neuroses. Sentia-me culpado. Inclinei as costas
para trás. Grudei os olhos no teto. Cocei a nuca em negação. Esmurracei a mesa
com as mãos e com a testa. Sufoquei-me em uma angústia que ardia, enquanto não
sentia-me em lugar nenhum. A ideia era de um surto. Até que de fato assim
virou. Deitei-me na cama para expurga-lo antes que tomasse conta de mim por
completo. Fechei os olhos e esperei que o tempo passasse.
Horas depois, levantei-me girando o tronco para o lado e
catei na gaveta aberta do criado-mudo os panos que comprei. Fui até o banheiro
e abri o pote de tinta branca. Pintei todo o meu rosto – incluindo o cabelo, as
pálpebras e também as orelhas. Na cozinha, embaixo da pia havia um saco de
linhagem. Apanhei-o e abri. Havia muito mato e também esterco. Joguei metade
daquilo por todo o corpo; após colocar os panos que pedi ao alfaiate, terminei
de jogar o resto. Acoplei os chifres nas extremidades da cabeça. Em uma gambiarra
não muito bem feita, fiz do nariz do falecido boi uma mascará. Nos pés, duas
ferraduras coladas abaixo de cada um dos chinelos; nas mãos só colocaria quando
chegasse ao local. O traje estava pronto.
Em meu perfil, deixei uma mensagem pública a todos antes de
ir ao local:
“Para ter o perdão, é
preciso antes de mais nada buscar a razão do motivo que trouxe-lhe a cometer o
seu pecado.
“Sejam bondosos e
compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os
perdoou em Cristo. Efésios 4:32”
Oito e vinte e cinco da noite. Do assento do carro já
observava a escuridão da fazenda. O céu estava limpo, completamente contrário
de minha mente, que não me dava paz sequer por um segundo. Deixei o veículo não
muito distante e pulei o cercadinho.
Adicionei as últimas duas ferraduras, dessa vez em cada uma
das mãos. Fiquei de quatro no gramado. Hesitei um instante. Comecei a imitar
uma vaca. Mugia alto, baixo e falhado. Transpassava pelo silêncio, mascava umas
folhas no chão e encarava qualquer lugar que meus olhos estivessem fixados.
A neblina da madrugada convidava indelicadamente o arrepio na
pele. Mas eu resistia. Entre algumas lágrimas que jorravam tímidas levando a
tinta do rosto, resistia. Eu precisava encontrar onde havia surgido a raiva
daquele dia, também o motivo do pecado. Enquanto secava o rosto observei a
projeção intensa de uma sombra no chão. Uma luz muito forte vinha no sentido
oposto, em altura considerável, mas mantendo distância de mim.
- Muuuuu, muuuuuu, muuuuuu. – com um alto e definido som,
imitei ainda com mais contundência uma vaca.
A luz foi se aproximando. Dessa vez fazendo giros incríveis e
ornada em uma intensidade desconhecida do que de costume já tivera visto antes.
Imitei um leve cavalgar até rente a luminosidade e continuei meu espetáculo
bizarro.
- Por que você está fazendo isso? Quer enganar a quem? –
disse a voz vindo dispersada nos raios das luzes.
- Muuuu, muuuu.
- Pode parar com isso. Responda-me, por que está fazendo
isso?
- Eu sou uma vaca.
- Rapaz, pare com isso. Venha cá. Vou te ajudar. Está frio
demais aqui fora.
Eu reforcei o cavalgar com um relincho tímido. Mas eu não
sabia coisa nenhuma do que eu estava fazendo.
- Não se aproxime, senão eu vou te pisotear.
- Calma, calma. Vamos conversar.
- Não tem conversa. Sai daqui senão eu vou te matar.
O senhor aproximou-se calmamente de mim e por fim tentou
amistosamente saber o que estava acontecendo. A fúria estava desenhada nos meus
olhos, mas meu sistema encontrava-se completamente conflitante, porque ao tempo que
não via sentido na raiva, não via sentido na vida, em mim, no tempo, no espaço,
em nada.
- Por que você está aqui? Te aconteceu alguma coisa? – disse o
senhor, num tom de voz afável.
- Gaya. – eu dizia, enquanto retorcia e voltava o pescoço num
tique imparável.
- Quem é Gaya?
- Vaca.
- O que?
- Gaya. Vaca. Gramado. Sangue. Morte.
- Ei, concentre-se. Eu não estou entendendo nada.
- Pisotear. Eu vou te pisotear. Como ela fez. Massacrou,
pisoteou, amassou a cabeça. Explosão. Sangue para todo o lado. Sem ação. Sem
reação. Sangue. Muito sangue.
- Meu filho, aprume-se. Você está desnorteado.
O senhor estava perdido também. Eu soltava as palavras
aleatoriamente e não o convencia de nada senão do meu próprio surto.
- Como eu posso perdoá-la, se com isso que fiz eu... eu não consigo entende-la,
muito menos os seus motivos.
Desmaiei.
Abri meus olhos e eu estava deitado nos assentos de trás do
meu carro. No meu peito, uma foto minha e de Gaya juntos, tendo como fundo
aquele vasto gramado, os cabelos esvoaçados e o sol banhando nossas nucas. Ouvi
alguém me chamar. O som estava baixo, porque os vidros estavam fechados. Olhei
la fora. Gaya vinha em direção ao carro, destrambelhada com seu jeito engraçado
de andar. Eu respirei fundo...
Você não caiu nesse erro da minha mente, caiu? Meu sistema
está falhando, não se lembra? Isso é um bug. É uma proteção de tela, assim como
aquelas de cachorrinhos pulando na grama e de pétalas de flores de várias
cores. Se eu der um clique eu volto à realidade de uma área de trabalho completamente
suja e cheia.
Cliquei.
Recobrei-me. Eu voltei a estar no banco
de trás do carro. Estava tudo muito escuro. Encontrava-me encarando qualquer
lugar pelo vidro da janela. Eu estava dentro de uma
viatura. As luzes vermelhas e azuis rodopiando coloriam o gramado avermelhado. Vi um corpo
estirado com uma capa metálica em cima. Gaya estava realmente morta; como eu a reconheci eu não sei. Ao lado
dela, uma vaca abatida com alguns tiros pelo corpo.
Seria mais um bug?
Cliquei.
Abri os olhos.
Da viatura eu não havia saído.
Você e seus devaneios... Senti saudades. Como já disse outras tantas vezes, escreva logo um livro. Um beijo.
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