SALTO


          Havia chegado. Tirou o casaco cinza e o dobrou em cima da viga da janela. Viu algo que lhe tomou a atenção. Encarava aquele envelope que trazia dentro de si um tímido e ainda não lido cartão de visitas. O acariciou e cheirou como se soubesse o perfume que ele tinha rememorando um detalhe de alguma coisa que ainda não sabia exatamente o que. O cartão lembrava um dia, um tempo, uma memória que doía. Deveria ter cheiro de maçã com canela, ou um óleo de dama-da-noite. Não sabia decifrar, mas certamente era marcante. Entre uma opção ou outra um respirar fundo e uma indecisão. Existiam tantas palavras no mundo e um pequeno retângulo quis narcisicamente dar conta de englobar um capítulo inteiro numa redação para dizer tudo desnudo de alegorias e de significados demais. Apertou as pontiagudas extremidades dele e escorregou os dedos pelo talhado material daquele papel que acabara de perder sua pureza: agora ele era seu e suas palavras diziam algo, sem nem saber que assumia um casamento que não admitia erro. Terminou de lê-lo tão rápido quanto quis abri-lo. Guardou o envelope imitando um ritual sagrado prestes a ser tombado. Adicionou a cola que havia em suas papilas gustativas; enfiou-o entre as pétalas cor-de-vinho-claro enquanto repassava por elas a doce fita branca cor de leite. Repousou o buquê no canto da escrivaninha e o deixou marinar por ali. Colocou-se entre o mistério do envelope e o prazer de repousar-se na janela a observar o que acontecia no saguão do prédio.

          O rapaz encostou-se na pilastra da escadaria principal. Tomou conta das horas do relógio como se o tempo estivesse a seu serviço. Vigiou os dois lados da rua interpretando um guarda de trânsito. Parecia preocupado com algo que ele mesmo entendia que não deveria se preocupar. Em um descuido raspou o solado do tênis no porcelanato do chão e ecoou um fino barulho em todos as veredas do prédio. Foi gatilho para ele.  Lembrou dos passos daqueles saltos altos, que sem nem saber eram um som de sinfonia. Talvez não tão agradável ao vizinho de baixo, mas era um sinal de que ela estaria chegando até ele. De vez em quando a voz perpetrada no eco das escadarias enquanto atendia alguém ao telefone reverberava a ansiedade num pulsar descontrolado do coração. Em meio a isso o alvoraçado barulho das sacolinhas de supermercado arrancando o bem-estar dos tímpanos. O tapete recepcionou a chegada da amante. O porteiro pediu licença a valsa de seus cabelos ao vento para perguntá-la se precisava de alguma ajuda. Ela disse que não precisava enquanto repousava os óculos escuros entre os seios. Deu com o batom avermelhado ensanguentando a face dele enquanto suas mãos delicadamente amaciavam seus ombros. Dos seus olhos só se via o brilho de deslumbre. Da palma da mão tocando a mão dela, até o virar de pescoço a encarando da cabeça aos pés: ele saberia dizer exatamente o que sentia por ela sem expressar sequer uma palavra. Despediram-se do porteiro que há minutos atrás presenciou o espetáculo daquela paixão e subiram as escadas. Ele esperava que ela passasse a sua frente para elogiar seu glúteo. Ela pedia que ele fosse mais ousado e afagasse onde entendia que fosse fofo o suficiente para expressar o seu total tesão. Eles riam escandalizando os dentes para os espelhos das paredes entre um andar e outro. Pararam rente a porta e se encararam. Pela primeira vez podia se ouvir a nota do silêncio: ele dava o tom de que aqueles entreolhares iriam se devorar. Enquanto uma mão contornava a cintura dela, a outra tentava encontrar a chave da porta. O estalo da fechadura foi de total alívio. Ele a virou contra a porta e disse para esperá-lo. Era parecido que haveria alguma coisa, algo que ele premeditadamente havia feito e queria trazê-la ao gozo da surpresa. Foi até onde conseguiu enxergar no apartamento vazio.

            Acendeu a luz e foi de encontro ao buquê repousado na escrivaninha. Da viga da janela ouviu-se um salto, num compasso lento e de machucar, aproximando-se cautelosamente. Virou-se de lado e viu a figura recolocando o casaco cinza e jogando em cima da mesa de mármore um anel de brilhantes.  


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

William

PERDÃO

SEGUNDA CHANCE